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Transcrições de Documentos | Luiz Sacilotto


Nº de ordem: 28462

Tipo de texto: Documento

Veículo: Boletim Mensal da União Cultural Brasil-Estados Unidos

Local: São Paulo

Data: Abril de 1947

Autor: Sem autoria

Imagem: A matéria não apresenta imagens.

Título: Exposição dos “19 Pintores”, sob o patrocínio da União Cultural Brasil-Estados Unidos.


[Ilegível] Departamento de Ingles, professores e funcionários [ilegível] [ilegível], em suas declarações à imprensa paulistana, S. E [ilegível] [ilegível] de declarar o seguinte, a propósito de sua visita [ilegível] a m[ilegível] das impressões. Que organização admirável! Obedecendo métodos racionais, inteligentes, os custos ali em funcionamento [ilegível] realizando obra deveras notável. Têm cerca de 4.000 alunos, [ilegível] diz bem do interesse que despertam”.

DIA PAN - AMERICANO

A União Cultural Brasil-Estados Unidos, juntamente com o Departamento Municipal de Cultura, comemorou o Dia Pan-Americano, transcorrido em 14 de abril, com uma sessão solene ealizada no Teatro Municipal. Presidiu à sessão o Sr. Cristiano Stockler das Neves, DD. Prefeito Municipal de São Paulo, o qual pronunciou expressivo discurso. Em seguida, o Sr. Henry Hare Carter, Adido Cultural junto ao Consulado Geral Americano, proferiu uma conferência sobre o “Pan-Americanismo”. Foi depois feita pelo prefeito da Capital a entrega dos prêmios aos alunos do Departamento de Inglês, classificados no concurso promovido por esta entidade, com o fim de dar mais realce às comemorações do Dia Pan-Americano. Finalizando a sessão, a Orquestra Brasileira de Câmera, sob a regência do maestro Leon Kaniefsky, executou um programa de músicas Pan-Americanas.

SUMÁRIO DAS ATIVIDADES SOCIAIS E CULTURAIS DE 16 DE [ilegível] MARÇO A 15 DE ABRIL

No dia 17 de março o Prof. Fernando Tude de Souza, Chefe do [ilegível] do Ministério da Educação, pronunciou uma conferência subordinada ao tema: “Reportagem sobre os Estados Unidos”. O ilustre conferencista esteve recentemente nos Estados Unidos, em missão de intercâmbio educacional, como delegado do Governo Brasileiro.

***

No dia 27 de março, o Dr. Atílio Zelante Flosi, assistente na Faculdade de Medicina, discorreu sobre “Condições de vida nos grandes hospitais norte-americanos”. O Dr. Atílio Zelante Flosi esteve nos Estados Unidos, aperfeiçoando-se em Endocrinologia, com Bolsa de Estudos oferecida pela União Cultural Brasil-Estados Unidos, por intermédio do “Institute of International Education” e Departamento do Estado de Washington.

***

No dia 10 de abril, o Sr. Hermínio Lunardelli, que esteve na América do Norte como bolsista do “Institute of International Education”, especializando-se em Nutrição, pronunciou uma conferência sobre “Uma experiência na Universidade de Arkansas — A Nutrologia [ilegível] [ilegível] novo aspecto”.

Os críticos de São Paulo demoraram-se em apreciações sobre os 19 pintores, tendo mesmo surgido vivas controvérsias, o que levou os Srs. Sérgio Milliet e Lourival Gomes Machado a promoverem, sob o patrocínio desta entidade, debates no recinto da exposição. A esses debates compareceram cerca de mil pessoas, e segundo opinião dos próprios promotores dos debates, foram estes os mais vivos e animados verificados até o presente momento em São Paulo.

Os Sr. Geremia Lunardelli, compreendendo a importância dessa iniciativa, ofereceu um prêmio de Cr.$ 15.000,00 para os melhores trabalhos expostos na Galeria Prestes Maia. Fizeram parte da comissão julgadora, a convite da União Cultural, os pintores Lasar Segall, Anita Malfatti e Di Cavalcanti, os quais, após acurado exame das obras expostas, classificaram os seguintes expositores: 1o Prêmio (Cr.$ 5.000,00): Mario Gruber Correia; 2o Prêmio (Cr.$3.000,00): Maria Leontina Franco; 3o Prêmio (Cr.$2.500,00): Aldemir Martins; 4º Prêmio (Cr.$2.000,00): Flavio Ciro Tanaka. Prêmio único de desenho (Cr.$2.500,00): Cláudio Abramo.

Na noite de encerramento, realizou-se, no recinto de exposição, uma festa em homenagem aos “19 pintores”. O programa constou de uma representação de dois quadros da peça “A Rainha Morta”, pelos “V Comediantes”, sob a direção do Sr. Micael Silveira. Em seguida, o pintor Di Cavalcanti anunciou os nomes dos vencedores do Prêmio “Geremia Lunardelli”, explicando o critério que os membros da comissão julgadora adotaram na seleção e enaltecendo o gesto do Sr. Geremia Lunardelli.

Da exposição foram, ainda, selecionados dois trabalhos de cada pintor, os quais deverão percorrer vários centros de arte dos Estados Unidos da América do Norte.

Segundo dados apresentados pelos funcionários encarregados da portaria da Galeria Prestes Maia, visitaram essa mostra de arte, durante os 17 dias em que esteve franqueada ao público, cerca de 50.000 pessoas.

Ao encerrar-se a exposição dos “19 Pintores”, sente-se a União Cultural Brasil-Estados Unidos plenamente recompensada do esforço desenvolvido, no sentido de realizar um dos pontos básicos de seu programa cultural, que é o de facilitar e proporcionar aos novos valores que se revelam nas letras e nas artes os meios necessários ao seu primeiro contato com a crítica e com o público em geral, tanto no Brasil como nos Estados Unidos da América do Norte.

MÚSICA

As audições de discos de “Hora Musical”, programada semanalmente, está prosseguindo este ano com ótimos resultados. Realizadas às terças-feiras, às 20 horas e meia, sob a direção da Prof. Inge Meyerson, o programa deste mês foi o seguinte: 1a audição: Peças do Rimsky-Korssakoff e Rachmanioff; 2a audição: Festival Brahms; 3a audição: Peças de Beethoven e Schubert; 4a audição: Dedicada a Geshwin e 5a audição: Música de Câmara.

PINTURA

Despertou invulgar curiosidade e interesse nos meios artísticos de São Paulo a exposição dos “19 pintores”, inaugurada a 19 de abril na Galeria Prestes Maia, sob os auspícios desta entidade. A essa exposição considerada pelo público e pelos críticos um acontecimento de grande relevância como contribuição para a história das artes plásticas em São Paulo — pois se compunha de trabalhos de um grupo de pintores novos que pela primeira vez expunham em mostra coletiva — concorreram Aldemir Martins, Antonio Augusto Marx, Cláudio Abramo, Enrico Camerini, Eva Lieblich, Flavio Ciro Tanaka, Huguette Israel, Jorge Mori, Lothar Charoux, Luiz Andreatini, Luiz Sacilotto, Marcelo Grassmann, Maria Helena Milliet Fonseca Rodrigues, Mario Gruber Correia, Maria Leontina Franco, Odetto Guersoni, Otávio Araujo, Raul Muller Pereira da Costa e Wanda Godoy Moreira.

Desses pintores exigiu-se apenas a condição de ser “novo” e de ser moderno, sem entrar no julgamento do valor individual de cada um, pois que esse julgamento ficaria posteriormente a cargo da crítica especializada.

Foi confeccionado um catálogo com uma breve biografia dos expositores e respectivo auto-retrato, e uma introdução de Geraldo Ferraz, conhecido crítico de arte.

O “Diário da Noite” promoveu um inquérito entre artistas de renome no cenário das artes plásticas de São Paulo sobre essa iniciativa. Entre outros, depuseram os Srs. Flávio de Carvalho, Aldo Bonadei, Clovis Graciano e Vitor Cordeiro, todos enaltecendo o sentido da mostra dos “novos” e encarecendo os esforços desenvolvidos pela União Cultural Brasil-Estados Unidos.

BIBLIOTECA

A biblioteca “Thomas Jefferson”, em virtude do grande aumento de inscrições de leitores, verificado nestes últimos meses, passou a funcionar, ininterruptamente, das 9 às 21 horas e meia. Dentro desse horário os leitores poderão retirar livros ou fazer consultas nas salas de leitura.

DEPARTAMENTO DE INGLÊS

Especialmente contratado pelo Departamento de Estado de Washington, D. C., para lecionar inglês nos cursos mantidos por esta entidade, chegou a S. Paulo, no dia 16 de abril, o Sr. Don Cummings Robinson.

O Prof. Don Cummings Robinson cursou a Universidade de Wisconsin, graduando-se em Ciências, em 1943, pela Escola de Educação. No último ano do curso obteve duas bolsas de estudos, uma da própria Universidade e outra da Fundação “Wesley”. Em 1942 alistou-se na marinha, tendo sido chamado em 1943. Em 1944 foi escalado para o Pacífico. Ali participou das invasões das Ilhas Marshalls, Guam, Peleliu e Leyte. Em novembro regressou ao Hawaii para auxiliar nos planos de invasão de Iwo Jima. Por essa ocasião, já era Oficial de Operação na; “Waianae Amphibious Training Base”. Pela sua atuação na invasão de Guam recebera “Navy Unit Commendation”. Após 18 meses de serviços no mar, voltou aos Estados Unidos, onde foi designado para a “Navy Oriental Language School”, em Stillwater, Oklahoma. Alguns meses depois, ao ser desligado da escola foi enviado ao Rio de Janeiro, onde serviu junto ao Adido Naval. Regressando aos Estados Unidos em setembro de 1946, foi, nesse mesmo mês, desligado com honra, como Tenente.

Em Wisconsin, cidade de cerca de 40 mil habitantes foi professor de Latim e Inglês, bem como dirigente de um grupo dramático, tendo representado na peça “Angel Street”. Em fevereiro o Departamento de Estado ofereceu-lhe o lugar que ora passa a exercer na União Cultural Brasil-Estados Unidos.

VISITANTES ILUSTRES

Visitou a série da União Cultural Brasil-Estados Unidos, em meados de abril, o Sr. Cristiano Stockler das Neves, DD. Prefeito Municipal de São Paulo. S. Excia foi recebido pelos membros da diretoria, pelo Sr. Cecil M. P. Cross, Consul Geral Americano, Dr. Joseph Privitera.

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Como referenciar este documento: Exposição dos “19 Pintores”. Boletim Mensal da União Cultural Brasil-Estados Unidos, São Paulo, abr. 1947. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28462.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28488

Tipo de texto: Reportagem

Veículo: Tribuna da Imprensa

Local: Rio de Janeiro

Data: 5 de março de 1953

Autor: Walter Zanini

Imagem: A matéria apresenta duas imagens; um desenho com uma legenda abaixo: “Quando ele ainda não haviaabandonado a figura humana” e uma pintura com a seguinte legenda: “Ritmos Sucessivos”, quadro que valeu a Sacilotto e “Grande Prêmio Governo do Estado”, no II Salão Moderno de S. Paulo”.

Título: Das plantas de arquitetura ao neoconcretismo.


Retrato do jovem artista Luiz Sacilotto — Para os concretistas o abstracionismo tradicional está superado — Experiências do Grupo Ruptura com pintura a duco, nordex, esmalte.

— Reportagem de Walter Zanini —


São Paulo (Sucursal, Luiz Sacilotto) — (Prêmio Governo do Estado, no II Salão de Arte Moderna) está entre os artistas paulistas da novíssima geração que, a exemplo do que hoje acontece em várias partes do mundo, lutam tenazmente pela criação de um estilo pictórico que marque a nossa época no futuro.

Pertencente à corte, cada vez mais numerosa, dos pintores concretistas, traçou-se rigoroso esquema de pesquisas, dentro dessa orientação, que, para uns, não passa de mero e inútil esoterismo, enquanto para outros é sintoma claro de nova fase na história das artes plásticas.

Dentro desse esquema, vem procurando uma criação individual e livre, embora não se tenha ainda emancipado dos mestres que exercem influência sobre o organismo jovem de sua pintura. Mondrian, Van Doesburg e outros valores do neoplasticismo estão entre aqueles cuja obra incitaram em si esse apego à pintura bidimensional, ou seja, a pintura que volta a ser uma composição na superfície.

PASSATEMPO

A curta história de Sacilotto (nascido em Santo André, de família proletária) é a mesma de todas as vocações que desabrocham por si. O meio lhe foi sempre adverso, desde menino, e a seta, que lhe indicou o caminho, muito vaga. Alguém enxergou um pouco mais e arriscou-se a dizer que o adolescente tinha certa sensibilidade para o desenho. Na verdade, tinha bastante. E isso se via em muitas coisas. Por exemplo: na reprodução dos heróis dos suplementos juvenis, seu passatempo predileto.

NA ESCOLA

Matriculado na Escola Profissional do Brás, ali fez o curso de pintura industrial, durante 5 anos(1938-1943). Suas pretensões eram muito modestas. Tratava-se de aprender um ofício. Mas, quando tomou mais consciência das coisas e atingiu seu quarto ano de estudos, tudo começou a se aclarar.

Por fora do programa, entrou em contato com a pintura de caráter artístico. Ensinaram-lhe como fazer uma tela acadêmica, e por isso para o artista nascente, foi um verdadeiro “abre-te-sesamo”. Ao mesmo tempo, pela primeira vez em sua vida, ouvia falar de impressionismo, cubismo, futurismo, etc. Entusiasmou-se Sacilotto e passou a frequentar a seção de Artes da Biblioteca Municipal. Suas noções ainda vagas de história da arte acabaram ganhando a consistência necessária para reajustar muita coisa errada que aprendera, em classe, da boca de seus professores cheios de limitações.

EMPREGOS

Deixando a escola. Iniciou-se no desenho industrial. Suas ideias já se revelavam à frente do rigor do “industrial design”. As combinações funcionais dos serviços de Hollerith, com as quais se familiarizou, foram importantes também para que, mais tarde, chegasse à arte abstrata. Faltava-lhe, todavia, uma cultura suficiente para simplificar o rumo.

PRIMEIRA EXPOSIÇÃO

Em companhia de Marcelo Grassmann, que conhecera na Escola Profissional, de Otávio Araújo, hoje auxiliar de Portinari e de Andreatini, que abandonou a pintura por motivo de saúde, realizou sua primeira exposição. Todos revelavam nítidas tendências expressionistas, que nele iriam perdurar alguns anos.

Em 1945, com 21 anos, empregou-se num escritório de arquitetura. Descobriu aí um novo sugestivo mundo: o mundo das plantas e projetos de grande arte. Empolgou-se com o estudo geométrico da superfície, com o vigor e a limpeza da composição com a distribuição dos elementos representativos no espaço.

O sentido bidimensional na planta de um edificio é uma representação abstrata. Em contato diário com esses projetos gráficos e sabedor, a essa altura, da existência de movimentos como o “Grupo De Stijl” e de todas as inovações trazidas por Kandinsky, Mondrian e Max Bill, inclinou-se para a pintura não-figurativa.

— “A minha tendência para a arte concreta brotou naturalmente, foi uma necessidade de expressão” — diz Sacilotto.

Já em 1948, ele abandonava a figura humana, e o seu expressionismo era fase liquidada. Veio então a amizade com Charoux, Wlandislaw, Cordeiro e Geraldo de Barros. Era a gênese do “Grupo Ruptura”, que tanta celeuma levantou quando da recente exposição do Museu de Arte Moderna.

SUPERADO

— “Para os que se alistam na grei dos concretistas — afirma o pintor — o próprio abstracionismo tradicional está superado. Ele não consegue fugir da surrada terceira dimensão, embora isso não seja feito conscientemente. É verdade que utiliza formas modernas. Sua cromática, porém, é antiga. E nós, os concretistas, queremos fazer pintura nova, utilizando as cores puras, sejam as primárias (vermelho, amarelo, azul), sejam as complementares (laranja, violeta e verde). Assim, nunca teremos a sensação da terceira dimensão ou de quaisquer velhos truques”.

DUAS OBSERVAÇÕES

Deixa claras duas coisas:

— “Eu e meus colegas do Grupo Ruptura temos sido injustamente acusados de não possuirmos o artesanato suficiente para produzir trabalhos artísticos dignos desse nome. É uma inverdade. De minha parte, nunca esqueci a importância do “metier”. E isso, desde meus tempos de Escola Profissional, até hoje, no Grupo Ruptura, onde, ao lado do estudo teórico, nos damos a toda sorte de experimentos técnicos, inclusive com matérias novas, como a pintura a duco, o nordex, o esmalte, etc.

“A outra insinuação, está então de indisfarçável má fé, e que atinge a todos os pintores que se batem pela renovação autêntica da linguagem artística, é a de que estamos tentando dar um ar de novidade a uma escola de pintura que já existe há cerca de 40 anos. E aqui pergunto: que dizer dos que persistem em criar formas novas de princípios velhos, isto é, daqueles que, no seu otimismo acolchoado, continuam a fazer o mesmo que a história da arte registra desde o homem das cavernas?

É necessário frisar, entretanto, que a divergência existente no plano estético não pode ser estendida ao terreno humano. Neste, continuamos amigos de todos abstracionistas ou figurativistas, e nem haveria razões para acontecer o contrário...”

PREPARE-SE

No momento, embora a luta pelo pão de cada dia não o deixe de trabalho (faz desenhos para arquitetura), vai para casa iniciar nova jornada. Pinta quase todas as noite, até horas vançadas. Persiste, assim, no esforço que sempre foi uma constante na sua carreira intranquila e cheia de ideias muito à vontade para estudar e produzir, Sacilotto, prepara-se com afinco para a próxima Bienal. Após suas 9 horas diárias.

--- Como referenciar este documento: ZANINI, Walter. Das plantas de arquitetura ao neoconcretismo. Tribuna da Imprensa, Rio de Janeiro, 5 mar. 1953. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28488.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28474

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Correio Paulistano

Local: São Paulo

Data: 6 de maio 1947

Autor: Ibiapaba Martins

Imagem: A matéria não apresenta imagens.

Título: Notas de Arte - 19 pintores


Esta nota deveria ser publicada em nossa edição de domingo. Por falta absoluta de espaço, não o foi e, portanto, sai após o encerramento, ontem, daquela mostra de arte.

*

Encerra-se amanhã, a exposição dos 19 pintores. Diante da importância que sempre contém uma exposição de novos, que pretende ou poderá pretender a apresentação de algo novo, seria justo que a atual mostra da Galeria “Prestes Maia”, continuasse aberta por mais alguns dias.

Compromissos já tomados, entretanto, impedem que tal aconteça e temos que nos resignar com os fatos.

Nunca uma exposição foi tão esperada em certos círculos como esta patrocinada pela União Cultural Brasil-Estados Unidos e parece que poucas deram em tão grande decepção como a dos jovens 19 Pintores. Esperava-se talvez uma floração de jovens muito disciplinados na esteira que os mestres lhes traçaram. Houve por isso quem exclamasse que os 19 jovens pintores da Galeria “Prestes Maia” constituem o que há de mais velho e mais passado.

— “São velhíssimos!” — exclamou alguém. Tais considerações todavia não obstaram que outras pessoas — e parece que com muito mais razão — lamentassem por sua vez: — “Que infância desamparada...”. Depois de ler a opinião da crítica, um dos jovens — parece que Mario Gruber Correia — e falou entre desalentado e convicto: — “mas vocês não acham que chega de destruição?”. Queria referir-se provavelmente ao período da pintura que alguém chamou “período de crise de lealdade”. A exclamação do jovem Mario Gruber Correia revela bem o que passa no íntimo desses jovens: querem “construir” (não confundir-se com a apresentação de “algo novo” dos que consideram que a “única realidade” é seu próprio “eu”). Estes são justamente os que mais se apegam aos ensinamentos de alguns tantos mestres, seguindo suas “descobertas” puramente técnicas. Convertem-se em verdadeiros mendigos no que respeita a ideias, ao passo que os que desejam “construir” apenas não sabem como.

Dito isto, passemos a falar de Flavio Ciro Tanaka e outros jovens pintores da Galeria “Prestes Maia”. Tanaka é um enamorado da cor, embora algumas de suas telas se mostrem um tanto sujas. Preocupado com o anedotário da vida cotidiana, revela-se mais minucioso no estudo de certas naturezas mortas (Peixes), embora a paleta e cores sejam as mesmas.

Huguette Israel consegue belos efeitos com algumas de suas flores, principalmente naquelas mais frias e claras. Já participou de diversas exposições coletivas e muito pouco tem progredido.

Jorge Mori apresenta alguns trabalhos já expostos (entre os quais o ótimo “Largo de Pinheiros”) e algumas experiências. Nestas não é feliz, e pode-se dizer que a única tela que se salva é a que representa uma massa de arranha-céus.

Lothar Charoux não é propriamente um dos jovens, nem pela idade nem pelo que nos dá de pintura. Comparável a Maria Leontina Franco, é um dos que expõe maior número de telas, onde repassa cubismo e post-impressionismo.

Maria Leontina Franco enveredou definitivamente por um rumo. Tem bons retratos, compõe bem e sua pintura não foge a um certo decorativismo.

Luiz Andreatini é um dos jovens que irá longe se “abandonar as más companhias”. Algumas de suas telas revelam audácia e noção de equilíbrio, embora também mostrem premeditação. Tem um trabalho de frutas em que joga muito bem com os complementares.

Seu companheiro Luiz Sacilotto só nos apresentou alguns de seus desenhos e gravuras. Uma de suas gravuras, representando uma mulher sentada, é muito boa. Pode-se dizer que ele, Araujo e Grassmann são os três melhores desenhistas da exposição. Sacilotto e Araujo mostram muitos pontos de semelhança. O mesmo já não acontece com Marcelo Grassmann, jovem muito brilhante como tivemos ocasião de dizer, mas que não se aprofunda na realidade das coisas. Seus desenhos, traçados numa desenvoltura agradabilíssima, com o máximo de composição, poderiam apanhar mais o espírito dos personagens. Conseguido isso e Marcelo Grassmann será um grande artista. Parece que vai longe este jovem.

Quem consegue no entanto penetrar a profundidade dos personagens é seu companheiro Otávio Araujo, menos brilhante e no entanto mais seguro. Alguns auto-retratos, aquelas figuras modestas e simples estão a revelar o que poderá ser esse jovem patrício. Tem uma paisagem muito boa.

Maria Helena, a menos jovem do grupo, é a única surrealista. Dois quadros relativamente bons (“Solidão” e “Desespero”) e o resto para fazer número.

Mario Gruber começou na escultura e até hoje pinta como quem esculpe ou modela. Tem uma natureza morta muito boa.

Odetto Guersoni pinta mais ou menos parecido com Cesar Lacana. Consegue belos efeitos em alguns trabalhos e parece não querer sair da cópia da natureza, no que tem de mais simples.

Vanda Godoi Moreira: aluna de Valdemar da Costa, simplesmente.

Raul Muller Pereira é um jovem que parece já estar encontrando “seu caminho”. Embora nem todos os seus trabalhos agradem e muitos deles sejam apenas repetição de coisas feitas, é um dos de mais forte personalidade. Consegue apanhar o que há de proletário em certas paisagens urbanas em que aparecem muros de fábrica e chaminés cortando o céu ensanguentado.

Como se viu, parece que os 19 pintores constituem um conjunto de jovens que desejam construir a nova pintura no Brasil, mas não sabem como. Constituindo a arte também um coordenador do pensamento social, resta aos jovens artistas discernir qual é a mais poderosa entre as diversas tendências que se expressam em nossa superestrutura. Encontrando-a, terão encontrado seu caminho.

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Como referenciar este documento: MARTINS, Ibiapaba. A matéria não apresenta imagens. Correio Paulistano, São Paulo, 6 mai. 1947. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/474.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28454

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Diário de Notícias

Local: Rio de Janeiro

Data: 21 de abril de 1976

Autor: Ruben Navarra

Imagem: A matéria apresenta um desenho de Marcelo Grassmann intitulado “Desenho” de 1945.

Título: São Paulo das Surpresas.


Eis um dos fenômenos mais estranhos nos anais da plástica brasileira contemporânea. Aconteceu em São Paulo, berço oficial da nossa arte não acadêmica. Confesso que me acho um pouco atordoado para bem olhar o caso. E a história de quatro rapazes paulistas, completamente desconhecidos, que o nosso amigo Carlos Scliar teve a ideia de lançar no Rio, embora todos eles tenham nascido depois de 1920.

Quando fui informado desse projeto, fiquei bastante intrigado. Achei demais que Scliar, um artista ainda não maduro, andasse feito empresário de “novíssimos”. Era melhor que fosse cuidar da vida dele, trabalhar mais e aparecer menos, pois aquilo me cheirava a mecenato e pedagogia. Scliar me falava do plano e eu resmungava. Primeiro, não acreditava que ele tivesse mesmo “descoberto” quatro preciosos talentos plásticos em princípio de floração. Enjoada mania de ser empresário, pensei eu. Depois, isso não era função para um artista de 25 anos, que ainda não dominava os seus meios e nem se decidia a entrar a sério na pintura de cavalete...

Agora tenho que mudar de opinião, quando nada em relação ao primeiro ponto. Mas a importância da “descoberta” por ele feita é tão evidente a meus olhos, que me sinto, desta vez, quase inclinado a perdoá-lo. Não só perdoar, como ainda agradecer. Ficamos-lhe devendo a revelação de uma experiência artística absolutamente inesperada, e que jamais suspeitaríamos que estivesse tomando sua forma, silenciosamente.

Será um fenômeno realmente tão inédito assim? A primeira abordagem, a impressão é de completa surpresa. Ficamos meio irritados, e com alguma razão, à ideia levantada por aquele crítico inglês germanófobo, de que a pintura brasileira estava sofrendo demais a influência do expressionismo da Europa Central. Sim, senhor! O amável crítico tomara muito ao pé da letra a presença de alguns pintores europeus refugiados na exposição brasileira de Londres. Uma circunstância de ocasião transformou-se para ele em episódio da história da arte.

Seria razoável falar na existência de um “expressionismo” brasileiro até então? Nossa memória não esquece que Segal é hoje cidadão brasileiro e vive em São Paulo há muitos anos. Sua arte, de origem expressionista, não pode deixar de ter influído no espírito dos pintores paulistas, tão afeiçoados aos temas sociais e ao sentido do drama interior. Mas em São Paulo mesmo, havia outros pioneiros autóctones cultivando o mesmo espírito, sem nenhuma ligação direta ou indireta com a Europa Central. Pelo contrário, historicamente, as ligações internacionais (que palavra perigosa!...) do “modernismo”, como movimento organizado era com Paris e não com Berlim. As orgias modernistas tinham como modelo a gente de Cocteau e dos surrealistas. E quando, ainda hoje, o crítico Germain Bazin fala de “expressionismo” a propósito de Portinari, nem de longe lhe ocorre comprometê-lo com a Europa Central.

Portanto, podemos dizer que é praticamente pela primeira vez que aparece um grupo de artistas realizando uma arte conscientemente filiada ao espírito centro-europeu. Pensava que os quatro desenhistas de São Paulo tivessem visto a exposição dos alemães anti-nazistas na Askanazi. Mas o meu amigo diz que não, e ao mesmo tempo me dá informações seguras. Esses rapazes, com todo o fervor ortodoxo da primeira juventude, “descobriram” os expressionistas como outrora nossos poetas tuberculosos descobriram os românticos. E a eles se entregam sem nenhum medo. A esse entusiasmo, que transborda da pintura para as outras artes, inclusive a literatura, devemos opor apenas um pensamento de indulgência? Os nossos jovens amigos não merecem isso. Por mais juvenil que seja essa profissão de fé em seu entusiasmo, é impossível não levar a sério a tremenda força artística dessas dezenas de trabalhos gráficos. O talento desses rapazes autodidatas é quase escandaloso. Se o ímpeto não arrefece, a tradição parisiense das nossas influências está ameaçada de um chisma... Bom, não convém exagerar. O trópico ainda é poderoso. Mais centro-europeu de formação do que esses rapazes de sobrenomes estrangeiros era o já citado Lasar Segall, e ficou manso como um cordeiro. Não faz mal que nessas floradas de primavera estejamos a ver, dançando entre as folhas, os espectros de Kokoschka. Ainda bem que não estamos assistindo a um plágio vulgar. A técnica do mestre foi admiravelmente assimilada. E não tenho nenhuma vergonha de me entusiasmar com a variedade e riqueza plástica de Grassmann (Marcelo), Audreattini (Luiz), Otávio e Sacilotto, e a sua compreensão dos recursos gráficos do expressionismo. Empregam esses recursos com uma habilidade feroz. E não se diga que é só o truque da técnica — aqueles traços analíticos serpenteando, vibrando, se desintegrando, se enroscando, se desprendendo como fagulhas — mas é também o admirável sentido de composição, que se mostram principalmente em Grassmann e Andreattini, sendo que o primeiro me parece o mais rico de temperamento e de técnica, pois é o único a fazer tentativa de desenho à maneira de gravura, e saí-se tão bem como no desenho puro. Enfim, não quero esquecer de observar a posição desse brasileiríssimo Otávio, racialmente falando, metido na voragem dessa fuga até os manes de Kokoshka. Esses paulistas...

--- Como referenciar este documento: NAVARRA, Ruben. São Paulo das Surpresas. Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 21 abr. 1976. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28454.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28464

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Diário da Noite

Local: São Paulo

Data: 23, 25 e 28 de abril de 1947

Autor: Quirino da Silva

Imagem: A matéria não apresenta imagens.

Título: “19 Pintores”, “19 Pintores” e o Ofício, II — “19 Pintores e Ofício”, III — “19 Pintores” e o Ofício.


“19 Pintores”

Deixemos por um instante as nossas considerações acerca do ofício na pintura para atender esta manifestação plástica dos dezenove pintores moços, que ora se exibem na “Galeria Prestes Maia”. Antes, porém, louvaremos o gesto — que é um exemplo — da União Cultural Brasil-Estados Unidos, dispensando todo o apoio possível a essa realização. Depois, só muito depois, falaremos detalhadamente sobre o valor pictórico de cada um desses moços. Agora, no entanto, nos limitaremos apenas a fazer uma rápida apreciação sobre a referida mostra, sem dela dar um preciso juízo crítico.

De um modo geral, os trabalhos desses moços ali expostos, se equivalem em valor de concepção e de técnica. E é também, de um modo geral, que constatamos que eles souberam muito bem repetir, com desassombrado desembarco, o que ouviram e o que viveram. Já é alguma coisa. Mas, infelizmente, não podemos assegurar com a mesma certeza, se há nas suas manifestações plásticas ora expostas, uma compreensão mesmo vaga do problema pictórico. Por isso diz muito bem Geraldo Ferraz prefaciando o catálogo dessa mesma mostra; “Não há um esgotamento na pesquisa plástica, nem os meios de expressão artística do Homem contemporâneo sofreram uma queda desvalorizadora, um empobrecimento, nos abismos pelos quais rodaram as nossas gerações. Não obstante todos os horrores, conservamos as mãos limpas para traçar no papel, na folha branca que nos sobra, os recados sentimentais, a comunicação poética, o desenho da esperança sonhada em nossa solidão”.

Moços, ouvi bem Geraldo Ferraz! Depois, lavai as vossas mãos e procurai uma folha branca, bem branca, de papel, e nela traçai “os recados sentimentais” de vossas almas moças e puras. Ou então desenhai ou pintai os vossos tormentos, os vossos sonhos, as vossas alegrias, sem vos lembrardes das pesquisas alheias. Sede moços e não queiras nunca jogar pela janela clara da esperança, a chave dourada da vossa liberdade. Sede moços.

“19 Pintores” e o Ofício

É ainda no âmbito das nossas ponderações acerca do ofício na pintura que vamos procurar analisar esses moços pintores que ora se exibem na Galeria “Prestes Maia”, sob o alto e simpático patrocínio da “União Cultural Brasil-Estados Unidos”.

Seria clamorosa injustiça, negar talento a esses corajosos sonhadores, como também, deixar passar um silêncio a sua exibição.

Como já acentuamos, não há em nenhum deles, aquele obstinado desejo de ter a segurança profissional que nos legaram os mestres pintores da gloriosa Renascença Italiana. Falta, em suas obras, o afago, a ternura, a familiaridade. Enfim, aquela excelsa humildade impregnada pelo ofício, que as elevaria bem alto, muito alto...Por isso, o desamor ou mesmo o propositado descaso que constatamos nos seus trabalhos, sublinha-lhes de maneira alarmante a falta de personalidade.

Nas telas, por exemplo, deste moço que é Aldemir Martins, embora se lhe adivinhe o talento e mais a ânsia de nos contar as dolorosas cenas da vida do seu muito amado Nordeste, é flagrante a ausência do aprendizado. Essa ausência é frisante na monotonia do seu superficial colorido, nos gestos declamatórios das figuras, cujo desapaixonado desenho fácil, lembra, infelizmente, o de alguns dos nossos festejados pintores.

Neste moço pintor, a literatice o exacerba; a deficiência técnica o enfraquece; mas, o talento o encoraja. É possível, pois, que Aldemir Martins vença os defeitos apontados e alcance o lugar destacado que merece na pintura nacional.

II — “19 Pintores e Ofício”

É incrível que sejam tão velhos esses dezenove pintores e como, pelo que expõem, fazem questão de aparecer. Quem os olhas de relance imagina, pela idade que apresentam, que devem saber tudo, e isto é, aliás, o que desejam sinceramente manifestar. Mas, na realidade, nada, absolutamente nada sabem. Ignoram tudo quanto do ofício deveriam saber; ignoram, também, que certas coisas da pintura não deveriam repetir. São uns velhos moços, estes dezenove pintores. A tal ponto envelheceram que já se não lhes pode dizer nada. E isso porque começaram por onde quase se deveriam terminar. São uma espécie de mata-borrão: absorvem sem refletir, sem saber porque. Nasceram velhos. Velhos da pior velhice, a velhice superficial, epidérmica, sem a necessária maceração da vida. Não atingem a essência. Por isso, as suas manifestações plásticas não têm substâncias. Estes moços pintores — convém repetir — são velhos, muito velhos, velhissímos. Essa senectude pictórica está mais acentuada nos trabalhos de Vicente Marx.

III — “19 Pintores” e o Ofício

Quando se trata de analisar os atos e realizações da mocidade, qualquer afirmativa é quase sempre apressada. Disso estamos certos.

Dentro de uma alma moça canta sempre, em ritmo apressado, o hino da liberdade. Por isso, o moço, geralmente, não olha para trás. O seu largo horizonte lhe exacerba o pensamento e ofusca-lhe a visão. Mas, a despeito de tudo isso, ele aprende; aprende muito na sua desenfreada marcha.

A mocidade não copia, porque a cópia é um cansaço do espírito. Por essa razão, qualquer julgamento da mocidade a que nos referimos, seria, convém repetir, um juízo apressado.

Infelizmente não vemos nesses “19 Pintores” os predicados inerentes a esta mocidade. Sabem tudo e tudo ignoram.

Este moço que é Cláudio Abramo, cujo inegável talento conhecemos de sobra, não quer perder tempo com o aprendizado; despreza-o, como o provam os seus desenhos. Na obra deste jovem ora exposta, há uma imperdoável malícia que lhe empana o talento e evidencia a sua dissimulação. É Claudio Abramo, enfim, digno companheiro de Antonio Marx. Donos que são de inacreditável habilidade, lá vão pela vida afora saltando por cima das indispensáveis etapas do aprendizado. E, como paraquedistas, caem ora sobre um mestre de pintura clássica, ora sobre outro da pintura moderna, sem ao menos se preocuparem com esconder a incontida ânsia que têm do sucesso imediato. Que moços apressados!

O primeiro dorme candidamente sobre superfícies esbeltas que consegue tirar de desenhos a lápis ou a nanquim, que nada dizem. O segundo, entusiasma-se e se satisfaz a si próprio, com as largas e fáceis pinceladas que caracterizam os pintores afoitos. E assim, podemos dizer que os acompanham Erico Camerini, Eva Lieblich, Flavio, Ciro, Tanaka, Huguette Israel e os demais. Com talento, é claro, mas despersonalizados. Um deles apenas se destaca entre todos, mas para pior. Chama-se Jorge Mori, esse menino pintor que muito prometia e cuja última exposição individual, na “Galeria Itá”, chegou a nos entusiasmar. Infelizmente, os trabalhos que ele agora apresenta entre os “19” deixam muito a desejar.

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Como referenciar este documento: SILVA, Quirino da. “19 Pintores”; “19 Pintores” e o Ofício; II — “19 Pintores e Ofício”; III — “19 Pintores” e o Ofício. Diário da Noite, São Paulo, 23, 25, 28 abr. 1947. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28464.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28455

Tipo de texto: Crítica

Veículo: A Manhã

Local: Rio de Janeiro

Data: 26 de abril de 1976

Autor: Sem autoria

Imagem: A matéria apresenta um desenho.

Título: Quatro “Novíssimos”, de São Paulo


Com a exposição presente dos Quatro “Novíssimos”, de São Paulo, inicia o Instituto de Arquitetos do Brasil, em sua sala, uma série de certames, desde que está anunciada uma outra exposição, também de novos de São Paulo, para junho. Estes quatro que começam um intercâmbio cuja utilidade será supérfluo ressaltar têm assim o mérito de “batedores”, na via do maior conhecimento entre artistas plásticos de São Paulo e do Rio, os dois centros onde a pintura e a escultura são mais intensamente cultivados no país.

Qual o valor desta exposição?

Tratando-se de estreantes, a resposta deve forçosamente, cingir-se às hipóteses de arte apresentadas, desde que se trata de pessoas de curso normal no encaminhamento técnico e profissional da pintura. De fato, não se trata aqui de crianças prodígio. Andreatini, Grassmann, Sacilotto, Octavio, nos mostram, com os seus quadros e principalmente com seus desenhos, algo de muito estudado, tanto que nem parecem mais ser alunos de pintura... A constatação não invalida certamente as esperanças que se levantam em torno destes quatro expositores, desconhecidos até agora, mesmo em São Paulo.

Entretanto, para gáudio dos que admiram a arte moderna 100%, os quatro jovens expositores apresentam-se na primeira fila de sua geração. Inovadores? Certamente, não. Pertencem à vanguarda porque adotaram uma feição expressiva que não se pode definir como extremada, desde que o movimento de onde deriva já tenha encerrado o seu ciclo.

Andreatini, Octavio, Sacilotto e Grassmann são artistas “expressionistas”... pelo menos na classificação imediata que se lhes possa dar. Não se vê em nossa verificação qualquer censura. Os artistas podem e devem seguir os caminhos que melhor lhes seja indicado à sensibilidade. Neste pequeno time de jovens artistas, a grande escola derivada de Munch encontra por certo mais do que admiração. Entretanto, para cultivar as formas da escola é mais adequado o desenho de Grassmann, que até chega a fazer “pastiches” convincentes em que o seu expressionismo nada acrescenta à glória e à sabedoria dos mestres dessa corrente. Queremos frisar que é Grassmann o que mais brilha como expressionista, mas nem por isso, nos parece o mais artista dos jovens expositores. Este “mais artista” talvez seja Andreatini. Poder-se-ia mesmo determinar os graus de colocação, pelo exame e avaliação dos desenhos destes moços. Assim, Andreatini será o primeiro, Sacilotto o segundo, Octavio o terceiro, e Grassmann o quarto. A hierarquia que aqui fica é determinada apenas pela escala de sensível comunicação com que cada um dos jovens se nos apresentou... Não queremos nem de longe ferir a suscetibilidade destes. E o interessante é constatar que o mais capaz para apresentar um aproveitamento “expressionista”, Grassmann, tenha ficado por último, em nossa classificação. Repetimos que não somos contra o expressionismo, nem a favor. Mas nos parece, e é preciso usar de franqueza e de sinceridade, que Andreatini, mais distante, nos desenhos, do expressionismo, é o que possui mais senso plástico, principalmente revelado em certas naturezas-mortas (e repetimos que nos referimos ao desenho).

As experiências de óleo e têmpera dos quatro artistas são muito fracas para que se possa inferir algum valor próprio digno de menção.

Em todo o caso, a mostra interessa e a singularidade deste começo dos quatro “novíssimos” dá para que se pense em esperar, mais adiante, deles todos, alguma coisa de mais perdurável e importante, capaz de lhes revelar a personalidade.

Referindo-se na crônica muitas vezes à definição “expressionista” julgávamos necessário, para os que não se acham suficientemente informados acerca da escola, uma referência mais definidora do que foi o expressionismo, na pintura. A escola expressionista nasceu na Alemanha e é na Alemanha que ela mais se produziu, embora a Europa Central toda tenha concorrido para sua explosão...Por que se trata na verdade de uma explosão artística. Os “expressionistas”, dizem os seus críticos, “exclamam” sua comoção diante do mundo e da vida. Através de seu colorido, de suas linhas, retorcidas ou em ângulos muito vivos, apresentam os assuntos e os objetos “em crise”. O expressionismo respondeu, logo depois da guerra, e mesmo durante o conflito mundial de 14-18, ao movimento francês dos “fauves”, ou seja, o “fauvismo”. São os principais representantes do expressionismo alemão: Hofer, Grosz, Nolde, Heckel, Pechstein, etc. Hitler considerou os “expressionistas” o marco mais avançado da “arte degenerada”.

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Como referenciar este documento: Quatro “Novíssimos”, de São Paulo. A Manhã, Rio de Janeiro, 26 abr. 1976. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28455.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28467

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Correio Paulistano

Local: São Paulo

Data: 27 de abril de 1947

Autor: Ibiapaba Martins

Imagem: A matéria apresenta duas fotografias dos artistas reunidos na exposição. Na legenda feita por Ibiapaba Martins, abaixo da fotografia, ele descreve: “ Em conversa com o nosso crítico de arte, vemos da esquerda para a direita, os jovens Aldemir Martins, Maria Gruber Correia, Enrico Camerini e Marcelo Grassmann. Na outra foto, diversos “novos” e “velhos” artistas se entretêm diante dos quadros de Aldemir Martins”.

Título: Dezenove jovens pintores em exposição na Galeria Prestes Maia.


A União Cultural Brasil-Estados Unidos está patrocinando uma exposição de pinturas e desenhos de dezenove jovens artistas desta capital. O mais moço conta quatorze anos; o mais velho não tem trinta; a maioria está com vinte e dois, vinte e cinco anos.

A mostra de arte é homogênea, bastante homogênea. Tirando-se uma ou duas exceções, todos os jovens pintores contam alguns trabalhos que merecem ser chamados muito bons. Já foi dito deles que têm talento de sobra, embora lhes falte personalidade. Isto parece ser devido um tanto à pequena experiência de quase todos e o mais à tendência de seguir as pegadas de “mestres” que já estão passando, já estão merecendo um lugar nos museus.

Causa pena ver alguns daqueles quase meninos procurando imitar o “mestre” quando é mais do que certo terem muito mais personalidade (personalidade que não revelam porque está sendo contida pelo êxtase demonstrado diante dos mestres), mais sensibilidade e digamos mais vigor, mais explosão. O mal de muitos daqueles jovens parece ser um só: não querer pensar com a própria cabeça...

A arte é até certo ponto o coordenador do pensamento social; é um instrumento especial para captar a realidade. A ciência que trata de ser precisa e objetiva nos ajuda a prender a realidade por outros caminhos, mas o conhecimento científico é abstrato e nada diz à emoção humana.

Quando se trata de compreender algum aspecto da realidade, não basta simplesmente ter um conceito intelectual dessa realidade: — é preciso mostrar uma atitude emocional. Esta atitude encontra sua expressão na estética. É possível saber algo dos flagelados nordestinos, através de informações obtidas na Secretaria da Agricultura mas convenhamos que se pode “sentir” o que sentem os flagelados nordestinos, emocionar-se diante da grandeza de sua tragédia, olhando-se para um quadro (o quadro no 6 do jovem Aldemir Martins) em que no centro de uma paisagem desolada aparecem duas crianças e um cão esquálidos, sujos, esfaimados, tristes.

Um conceito que sempre me agradou a respeito da arte é expresso por Lunatcharski: “Quando as classes sociais criam seus sistemas legais, suas religiões, sua filosofia, sua moral e sua arte não dilapidam energia. Todas estas manifestações não são unicamente um mero reflexo da realidade em diferentes espelhos. Estes mesmos reflexos convertem-se em forças sociais, em estandartes e gritos de guerra ao redor dos quais se agrupa uma classe social, com a ajuda dos quais combate seus inimigos e recruta seus agentes e vassalos”.

Tendo em conta isso, passemos a examinar rapidamente cada pintor, sabendo de antemão que não iremos ter espaço e tempo (... é pena que a Exposição dos 19 Pintores fique aberta somente até o dia 5).

Aldemir Martins nasceu no dia 22 de novembro em Ingazeiro. Está há pouco tempo em São Paulo e portanto quase todos os seus trabalhos (exceto a experiência no 11 que parece não ter pretensões de sair do decorativismo).

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Como referenciar este documento: MARTINS, Ibiapaba. Dezenove jovens pintores em exposição na Galeria Prestes Maia. Correio Paulistano, São Paulo, 27 abr. 1947. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28467.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 28456

Tipo de texto: Crítica

Veículo: O Jornal

Local: Rio de Janeiro

Data: 30 de abril de 1976

Autor: Geraldo Ferraz

Imagem: A matéria não apresenta imagens.

Título: Os quatro novíssimos de São Paulo.


O expressionismo teve uma época. Os nomes de Munch, Marc, Hofer, Grosz, Pechstein, Otto Dix, Nolde, Kokoschka, e tantos outros, até o brasileiro de hoje, Lasar Segall, concorreram naquela notável jornada, só comparável em sua intensidade e profundidade aos “tempos heróicos” de começo do cubismo francês. Pode-se estabelecer uma escala entre a emulação alemã e francesa de renovação plástica. “Der Expressionismus” é uma reação do espírito através das artes plásticas que se diluiam no post-impressionismo de Vuillard, ou, se quiser um exemplo que permanece até hoje no fragmentarismo luminoso de Bennard, o “fauvismo”. Como sempre, o marginalismo artístico é o sismógrafo que antecipava a catástrofe, 1914. No dizer recente de Jorge Romero Brest, André Lhote, escrevendo suas recordações de 1913, menciona os “tempos heroicos” que se seguiram ao aparecimento das ferocidades plásticas de 1905 a 1908. O expressionismo, porém, é a crise dolorida da derrota; é a divergência entre a sensibilidade alemã e o militarismo prussiano, os bigodes do Kaiser. Já se definiu o movimento como um consubstanciador de uma crise de emoção e de espírito. É o trauma na arte, do drama do homem alemão. Os poetas expressionistas cantariam em “revanche” a fraternidade humana, tendo à frente o tcheco Franz Werfel, de 1918, cujo canto se dirige ao mundo, ao negro, ao chinês, ao proletário. A pintura, porém, retorce a linha, esmiúça a sujeira do mundo, põe em relevo as podridões do homem. Olhai — é quase sempre a cena humana, a miséria, a doença, a degradação, tipicamente germânico, se é alemão teria tanto romantismo para alimentá-lo: e expressionismo é um enorme grito de exclamação no panorama das artes plásticas.

Deixou todavia qualidades a se fundirem no conjunto — a fidelidade ao trágico da obra de Rouault é produto do expressionismo alemão até hoje. Porém Rouault...

No Instituto de Arquitetos do Brasil expõe agora “Quatro Novíssimos” de São Paulo, que são Octavio, Sacilotto, Grassmann, Andreatini e há grandes olhos admirativos, diante da identidade que eles têm com o expressionismo. Na verdade, começam daí.

Não há porque descobrir nisso uma personalidade artística, ainda, neles. O caso de Andreatini merecerá menção, mas, palavra, a bola vem alta demais. O tempo do expressionismo já passou. --- Como referenciar este documento: FERRAZ, Geraldo. Os quatro novíssimos de São Paulo. O Jornal, Rio de Janeiro, 30 abr. 1976. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/28456.pdf>. Acesso em: (data de hoje)