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Transcrições de Documentos | Sérvulo Esmeraldo


Nº de ordem: 12302

Tipo de texto: Notícia

Veículo: Jornal da Semana

Local: São Paulo

Data: 7 de setembro de 1975

Autor: Sem autoria. Assina no final do texto como LCA.

Imagem: A matéria não apresenta imagens.

Título: Um exemplo da boa técnica, tão desprestigiada.


O que fazer com o branco e o preto? Quem não aprendeu ainda esses ingredientes tão corriqueiros, deve visitar imediatamente a individual de Sérvulo Esmeraldo, em cartaz até o dia 13 no Gabinete de Artes Gráficas (Rua Haddock Lobo, 1568). Há duas séries de desenhos a primeira (Cr$ 3.500,00 cada) marcando o papel com apenas três recursos: relevos ondulantes, cuidadíssimos traços de nanquim, ou delicados sombreados a lápis. A associação com o perfil dos telhados tradicionais da arquitetura brasileira é imediata. Mas, infelizmente, nem um pouco gratuita. A característica dominante é o despojamento - e aí vai outra lição para quem insiste em colocar o máximo de recursos num mínimo de espaço, pecado frequente de todas as artes desde final de século.

A segunda série (Cr$ 2.500,00 cada) é mais barata mas não de menor qualidade. O despojamento e o rigor no branco e preto continuam. Apenas as ondulantes curvas são substituídas por um geometrismo de quadrados e diagonais, em experiências espaciais que destroem o bi-dimensionalismo do plano do desenho. E, mais notável, transformam em brincadeiras de crianças tudo aquilo que os seguidores de modismos tentaram aproveitar das ruínas da "op-art".

Sérvulo Esmeraldo, enfim, não contente com essa reavaliação (e re-valorização) dos efeitos "op-art" apenas com desenhos, se preocupou também com os objetos tri-dimensionais. E, em esculturas e múltiplos (preços variáveis, a partir de Cr$ 600,00) esta provando que seu rigor gráfico não serve apenas para ser pendurado em paredes. Nas esculturas e múltiplos, o mesmo domínio da técnica, seja qual for o material, do plástico ao metal. A falta de domínio técnico, é sempre bom repetir, é uma das principais causas das frequentes "quedas do cavalo" de muita gente que se acha artista plástico. (LCA)

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Como referenciar este documento: Um exemplo da boa técnica, tão desprestigiada. Jornal da Semana, São Paulo, 7 set. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12302.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 12305

Tipo de texto: Crítica/histórico

Veículo: Estado de São Paulo

Local: São Paulo

Data: 14 de setembro de 1975

Autor: João de Almada

Imagem: A matéria não apresenta imagens.

Título: Sérvulo Esmeraldo, um grafista singular


Com todo o respeito pela advertência de L.Wittgenstein — “do que não se pode fazer, o melhor é calar-se” — seria imperdoável passar em silência a exposição de Sérvulo Esmeraldo no Gabinete de Artes Gráficas.

Sérvulo nasceu em 1929 no Engenho Bebida Nova, no Vale do Carity, cidade do Crato e fez seus primeiros estudos de desenho na Sociedade Cearense de Artes Plásticas. Algumas exposições no âmbito provincial, as primeiras menções honrosas e, em 1951, o salto para o desconhecido que era São Paulo, onde teve por mestres Lívio Abramo e Oswaldo Goeldi.

Logo se destacou pela nobreza de suas qualidades artesanais como gravador, enquanto garantia a subsistência fazendo ilustrações para a imprensa. Em 1957, depois de ter exposto no Clube dos Artistas e no Museu de Arte Moderna, parte em direção a Paris como bolsista do governo francês. Lá trabalha no atelier de Friedlaender e cursa ao mesmo tempo a Escola de Belas Artes. Já era um nome consagrado, graças a suas experiências em xilogravura e metal, em litografia e monotipia. Mas o vazio que deixou também era de natureza afetiva: descendente de uma estirpe que deu nome a uma artéria do Funchal, na Ilha da Madeira, e nela tinha solar brasonado — a Rua dos Esmeraldos — o artista soube conquistar São Paulo com seu talento e também com aquela cordialidade natural do gentil-homem.

Neste intervalo de 18 anos, o homem não mudou — mas o artista transfigurou-se. Sua adesão aos valores simbólicos, já ensaiada nos últimos desenhos dele na fase paulista, é agora o encontro definitivo com uma sensibilidade voltada para a síntese sistemática das tensões que opõem o real à sua tradução geométrica e aritmética.

Não há, contudo, que falar no caso de Sérvulo Esmeraldo em experiências ou intuições essenciais. É certo que toda obra de arte responde a uma experiência ou intuição de seu criador, mas a estética atual desistiu de procurar a coisa em si, subjacente nos fenômenos artísticos. Era precisamente por isso que Wittgenstein fazia aquela saudável advertência, saudável ao menos a partir do momento em que Sartre disse que a obra de arte abstrata é análoga ao desconhecido.

Sérvulo é hoje um expoente internacional no campo das artes plásticas, um grafista quase único do nosso tempo. Tanto basta para que a exposição de seus 30 desenhos e 10 gravuras se torne obrigatória, mesmo porque seu regresso a Paris é uma penosa inevitabilidade.

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Como referenciar este documento: ALMADA, João de. Sérvulo Esmeraldo, um grafista singular. Estado de São Paulo, São Paulo. 14 set. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12305.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12303

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Jornal da Tarde

Local: São Paulo

Data: 10 de setembro de 1975

Autor: Jacob Klintowitz

Imagem: A matéria apresenta uma obra tridimensional de Sérvulo Esmeraldo.

Título: Esmeraldo, um geométrico fora do contexto.


Sérvulo Esmeraldo é um artista que pertence à enorme legião dos que, de alguma maneira, tentam continuar o caminho que o abstracionismo geométrico abriu para a arte contemporânea. Ausentes do contexto histórico e das necessidades culturais que criaram a arte geométrica, eles repetem as fórmulas já agora vazias de conteúdo. São novos artistas acadêmicos.

Nessa atitude artística há muitos profissionais entre nós e muitos outros internacionalmente conhecidos. Sérvulo Esmeraldo (Gabinete de Artes Gráficas, Haddock Lobo, 568) é um brasileiro com experiência de trabalho na Europa que, ao invés de aprimorar suas tendências ou potencialidades, terminou por se deixar seduzir pelo que de mais brilhante (aparentemente) têm as civilizações antigas: as técnicas.

Não é o primeiro caso. Há alguns anos, chegou ao Brasil um jovem artista, João Carlos Galvão, que trabalhara, entre outros, ateliers, no de Vassarely. Até hoje, João Carlos Galvão repete velhas formas esvaziadas de conteúdo cultural, numa pobre academia que decepcionou aos que esperavam muito de seu talento. Sérvulo Esmeraldo trabalha com relevo seco, geometria e um decorativo jogo de linhas. É uma mostra desprovida de vitalidade, perdida numa pretensa sensibilidade refinada. Inteiramente envolvida nessa pequena sensibilidade, nessa ausência de vitalidade, as gravuras, desenhos e múltiplos do artista, limitam-se à uma possível função decorativa em algum recinto de convencional e asséptico bom gosto.

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Como referenciar este documento: KLINTOWITZ, Jacob. Esmeraldo, um geométrico fora do contexto. Jornal da Tarde, São Paulo. 10 set. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12303.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 12304

Tipo de texto: Notícia/Perfil

Veículo: Revista Veja

Local: São Paulo

Data: 17 de setembro de 1975

Autor: Sem autoria.

Imagem: A matéria apresenta duas imagens; uma delas é uma fotografia onde o Sérvulo Esmeraldo está fumando um cachimbo e segurando uma de suas esculturas; e a outra é uma uma imagem colorida de um de seus desenhos acompanhada da legenda do jornal “Um desenho de Sérvulo Esmeraldo: como um serrote muito usado”.

Título: Auto-exílio. Um desenho de Sérvulo Esmeraldo: como um serrote muito usado.


Há nove anos, quando passava em frente a uma loja de ferragens na rua Oberkampf, em Paris (cidade que desde 1957 adotou como sua), o cearense Sérvulo Esmeraldo teve sua atenção despertada por um pequeno objeto. Feito de aço inoxidável, compunha-se de duas metades simétricas e encaixáveis, com 8 centímetros de altura cada uma, e era empregado na indústria como calha para fresagem mecânica. O que lhe interessou, contudo, foi o contorno sinuoso de um dos lados da pecinha, semelhante a um serrote muito usado e intimamente ligado às formas que Esmeraldo - um artista plástico de carreira já assentada, pertencente à área da abstração geométrica - vinha então pesquisando. Imediatamente ele adquiriu cinco exemplares, levou-os para casa, poliu-os, retrabalhou e transformou numa espécie de múltiplo, editado em 1967 em Paris.

Curiosamente, o ciclo iniciado naquele encontro casual só nos últimos dias se fechou. Expondo em São Paulo, no Gabinete de Artes Gráficas, Esmeraldo, 46 anos, apresenta trinta desenhos nascidos diretamente da forma de seu último múltiplo, integrantes de uma série unitária e completa.


Varetas métalicas - Ausente do Brasil desde 1957, excetuando eventuais visitas esporádicas (a última há oito anos), Esmeraldo talvez seja hoje um artista mais conhecido na Europa que em sua pátria. Integra o restrito rol dos brasileiros que conseguiram efetivamente um sucesso comercial internacional, como o escultor Sérgio Camargo e o gravador Artur Luís Piza. Também como eles, foi obrigado a um espécie de auto-exílio que lhe assegura permanente contato com os centros que consomem sua produção. "Teria vontade de voltar", confessa o artista. "Mas por enquanto não dá. Estou implantado no mercado lá fora e, se eu sair, o pessoal me esquece."

De qualquer forma, para Esmeraldo, "o exílio tem sempre um lado estéril. Você não é francês e vai deixando de ficar brasileiro. No fim, não é coisa nenhuma". Mas há também seus aspectos compensadores. Casado com uma francesa, pai de duas filhas, Esmeraldo desfruta, em Paris, de condições de produção pouco frequentes no Brasil. Mora em uma mansão estilo Napoleão III nos arredores da cidade ("Cujo aquecimento me custa os olhos da cara"), trabalha em dois imensos ateliers, dispõe de editores para suas gravuras e múltiplos, e recebe muitas encomendas e solicitações de diversos países. Após este intervalo brasileiro, por exemplo (com duração prevista até outubro), realizará em Gotemburgo, na Suécia, a maior de suas exposições até o momento: cinquenta desenhos e cinquenta esculturas.

Além do desenho e do múltiplo (do qual há exemplos na atual exposição), Esmeraldo tem-se dedicado igualmente a quadros-objetos, que ele denomina "excitáveis" e nos quais a participação do público é essencial. Ao tocar superfícies de plexiglas e varetas metálicas, o espectador provoca o surgimento de eletricidade estática capaz de colocar o quadro em movimento. "Os excitáveis são, no momento, o que mais me interessa como criador. Nesse sentido sou ainda absolutamente brasileiro. Faço em arte aquilo que me dá mais prazer e diversão."

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Como referenciar este documento: Auto-exílio. Um desenho de Sérvulo Esmeraldo: como um serrote muito usado. Revista Veja, São Paulo, 17 set. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12304.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12628

Tipo de texto: Entrevista

Veículo: Correio Braziliense

Local: Brasília

Data: 11 de outubro de 1975

Autor: Hugo Auler

Imagem: A matéria apresenta seis imagens; uma delas é um retrato de perfil de Sérvulo Esmeraldo; duas são fotografias de suas esculturas e as outras três são um tríptico de desenhos do artista.

Título: A arte consciente e programada de Sérvulo Esmeraldo


Sérvulo Esmeraldo está em Brasília. E apresenta, pela primeira vez nesta cidade, uma exposição individual de esculturas e desenhos de pura composição, aberta ao público no mezanino do Hotel Nacional. Na hora presente, radicado em Paris, Sérvulo Esmeraldo, além de ser um dos altos valores da arte brasileira contemporânea, é um dos raríssimos artistas pátrios que alcançaram projeção internacional. Essa posição talvez resulte de seu sério comportamento de artista criador que, através de sucessivas pesquisas, procura encontrar os meios mais adequados para a comunicação de suas formas de expressão, quando, então, atinge certeiras soluções para a concretização de criações existentes na imagética de seu universo interior.

Com efeito, na gravura em madeira e, posteriormente, na gravura em metal, a sua arte e a sua técnica assumiram um nível técnico tão alto que lhe conferiram uma posição de relevo no panorama de arte gráfica internacional. Mas, dominado pela inquietação dirigida no sentido de encontrar outras formas de expressão, assumiu o risco de abandonar a gravura, pelo menos episodicamente, para consagrar-se à escultura modelada e fundida em poliéster, criando múltiplos, ao desenho programado de pura composição e aos quadros-objetos com aplicação de princípios da eletricidade estática, realizando uma arte de participação, eis que o seu possuidor, impondo descargas eletrostáticas a todos os elementos, lhes dá uma dinâmica física, protraindo no tempo-espaço a obra de arte de sua criação.

Tomada em sua mais ampla e genérica acepção a corrente estética do abstracionismo, poder-se-ia dizer que, não tendo quaisquer conotações com a imagética real do mundo natural, a sua arte deveria estar incluída na abstração geometral. Mas Sérvulo Esmeraldo, posto confesse estar filiado ao construtivismo e, mais precisamente, ao concretismo, nega, e bem, que a sua arte esteja compreendida no abstracionismo. Aliás, a seu favor, tem a tese sustentada por Marcel Brion, que já se revoltara contra as etiquetas tradicionais, afirmando que o vocabulário estético não se deu conta de quanto há de inflexível, de equívoco e de limitativo no elenco de suas classificações, bem como Theo van Doesburg, que, ao recusar o título "abstração", afirmou peremptoriamente: “Pintura concreta, e não abstrata, porque não há mais concreto que uma linha, uma superfície, uma cor. E a concretização do espírito criador”.

E aí está a arte concreta de Sérvulo Esmeraldo. Uma arte consciente, pensada, refletida, programada, dominada pelo princípio da idéia-ordem, tal como quer Max Bill: A arte é paragonável à invenção: invenção de meios de expressão: é neste sentido que a arte pressupõe a originalidade do pensamento, do tema e da forma: e para acesso a esse tipo de originalidade, há somente duas vias: a via individual, que encontra sua fonte no estado da alma do criador, e a via geral, que se apoia sobre a experiência, sobre as possibilidades objetivas da criação.

Por todos esses motivos é que está a impor-se uma visita à exposição de Sérvulo Esmeraldo, com quem mantive este diálogo a título de introdução à sua obra gráfica, escultural e objetual:

Não ignoramos nenhum de nós que as revoluções estéticas, em todos os tempos, jamais extrapolaram as categorias artísticas tradicionais, como sejam a escultura, a pintura, o desenho e a gravura. Todavia, nas últimas décadas do Século XX, surgiram novas manifestações que escapam àquelas etiquetas, o que levou Marcel Brion a afirmar que a noção de obra de arte e de criação artística está posta em questão, exigindo novas categorias, acentuando tratar-se mais de um problema filosófico do que propriamente de uma problemática de vocabulário estético. Nessas condições, como você definiria, hoje em dia, a obra de arte e a criação artística?

— Eu penso que a evolução da arte em geral, e da arte plástica em particular, acompanhou o ritmo evolutivo natural, tanto do pensamento como da tecnologia. Se a arte se desenvolveu tão rapidamente, aliás, não tão rapidamente para meu gosto pessoal, foi devido ao grande progresso ocorrido em todos os setores de atividade da vida humana. Todavia, há uma coisa que deverá ser assinalada: em geral, o que evoluiu maisceleremente na arte foi o pensamento da arte, a sua parte conceitual, ou seja, o conceito da arte, evolução que não foi acompanhada pela execução da obra de arte dentro dos parâmetros daquele conceito. Assim, a dificuldade no encontro de uma perfeita definição de obra de arte vem um pouco da ausência daquele paralelismo. E que os parâmetros do conceito de arte estão na frente de sua realização e na da maioria dos artistas e muito mais na frente do público. Entretanto, tenho a impressão de que, na hora presente, a definição de obra de arte é a mesma de três décadas passadas. O que mudou foi, talvez, a penetração da obra de arte no grande público, com a invenção de novos acessórios pela moderna sociedade tecnológica e industrial: a

implantação da televisão e do audiovisual, os jornais e revistas com ilustrações em preto e branco e em cor, tudo isso despertou no público um maior interesse pela imagem, o que não ocorria há trinta anos atrás. A imagem passou a ser mais usada como meio de comunicação. E houve, também, um acesso mais fácil do público médio para o que se denomina na França de civilização de loisir, contribuindo para que a obra de arte passasse a ter mais profunda penetração. Por estas razões considero válidas todas as manifestações de avant-garde: da arte objetual, da arte conceitual, da videoarte e até mesmo da body-art. Toda expressão de arte é obra de arte. Tudo aquilo que o artista faz com a intenção de fazer obra de arte, mesmo que o público não aceite imediatamente, é obra de arte.

— Em consequência, onde situa a sua arte, tomando em seu sentido genérico, a corrente estética do abstracionismo?

— Eu não me situo como abstracionista. Sou mais um construtivista ou melhor, sinto-me mais como um concretista. De qualquer maneira, devo confessar não estar muito de acordo com esse pensamento que, para mim, é muito limitativo. Por princípio, sou contra esse tipo de lógica. Acho que a arte é sobretudo uma coisa instintiva: assim, nós, artistas, sempre nos interrogamos a posteriori. A nossa arte poderá sofrer classificações: mas a classificação não será mais do que uma catalogação. Quando digo que me sinto mais concretista é porque a minha maneira de pensar se enquadra mais nessa linha. Porém, se quiserem catalogar-me como abstrato, paramim isso não tem a mínima importância. A meu ver, seria um erro. E como se alguém quisesse classificar uma formiga na categoria de aranha: nem por isso ela deixaria de ser formiga.

— Tenho para mim que, em arte, todo e qualquer artista é sempre filho de alguém. E, consequentemente, não poderá haver artista que seja fruto de geração espontânea. Partindo desse princípio, poderia dizer quais os artistas que mais influenciaram na formação de seu estilo, de sua linguagem plástica?

— Exatamente. E, desde logo, eu me reclamo de maneira mais incisiva da obra de Paul Klee, que teve sobre mim uma importância muito grande, não na forma de fazer, mas na forma de pensar, que aliás, influi até hoje em meu trabalho. E deverei citar, também, Piet Mondrian, que me emocionou profundamente.

— Haja vista ao rigor geométrico de todas as suas composições, tanto na gravura e no desenho, como no quadro-objeto e na escultura.

— Sim. Mas um rigor revestido de liberdade e, portanto, com uma certa fantasia.

— Considera, então, que em sua obra não há qualquer intenção de representação objetual, qualquer sugestão de imagens existentes no mundo natural?

— Realmente. A minha obra poderá ser classificada através da seguinte evolução: eu fui gravador, quase que essencialmente gravador, durante muitos anos: há uma década, aproximadamente, abandonei esse gênero de arte gráfica, passando a fazer desenhos programados, esculturas e quadros-objetos, aos quais dei a denominação de excitáveis, visto como são baseados na eletricidade estática. Quadros para os quais a presença do observador é fundamental. Porque as cargas eletrostáticas geradas pelas fricção das mãos do contemplador participam da estrutura dinâmica dessas obras. Opera-se, então; um movimento físico e não puramenteespiritual. Pois bem. Em qualquer uma dessas manifestações, jamais tive a intenção de fazer com que as formas, em seu equilíbrio, em sua justaposição, em sua organização, pudessem sugerir qualquer imagem física do mundo exterior.

— Nessa altura, somos obrigados a voltar aos seus quadros-objetos a fim de que você revele as pesquisas que o levaram a recorrer à eletricidade estática. Como ocorreu esta solução?— Essa pergunta é muito boa e a resposta vale a pena ser contada neste diálogo, dado que se trata de um fato mais ou menos histórico de meu trabalho. Eu estava fazendo um livro que se chama Trois poèmes aimés.Um livro com três poemas-objetos. Um deles era um poema musical de Rimbaud: o outro era L’Adieu, de Apollinaire, e o último, Anunciação, de Vinicius de Moraes. Eu já havia obtido soluções para os dois primeiros poemas. E procurava uma solução para o de Vinicius de Moraes. Em dado momento, fiquei preso à imagem poética, na qual a moça conta que foi para o jardim e, quando estava dormindo, um anjo esparzia sobre o seu corpo pétalas de rosa. E comecei a imaginar uma solução que permitisse dar a impressão de pétalas de rosa tombando sobre o poema. Pensei longamente e cheguei à conclusão da possibilidade do emprego da eletricidade estática. O poema estava escrito no fundo de uma caixa com tampa de acrílico transparente. Em seu interior, foram depositados pequenos pedaços de papel vermelho. Friccionando com a mão a superfície de plexiglass, os pedaços de folha de papel subiam e ficavam colados na parte interna da tampa e, depois, iam caindo pouco a pouco à medida em que desapareciam os efeitos das descargas eletrostáticas, produzidas pela fricção de minhas mãos. Foi o meu primeiro excitable, o qual teve o mérito de demonstrar como o poeta pode ser catalisador para uma fase da obra de um artista criador. Um dia, mostrando esse poema-objeto a um editor francês, perguntou-me se eu não tinha a intenção de criar e executar quadros-objetos desse gênero, aplicando os mesmos princípios eletrostáticos, adiantando desde logo que teria interesse em fazer o lançamento. E foi assim que iniciei a criação e a execução dos excitáveis, os quais, inicialmente, foram de difícil elaboração, visto que, por vezes, não funcionavam por razões estranhas. A eletricidade estática é uma coisa muito misteriosa. Mas quis desvendar seus mistérios. Procurei amigos do Instituto de Pesquisa Atômica nas Universidades. E nessa pesquisa, descobri que ninguém conhecia a fundo a eletricidade estática, o que se justifica pois há dez anos era coisa pouco usada, tanto assim que somente agora está tendo empregos práticos. Então, tive que descobrir experimentalmente, lendo, também, livros antigos pois soubera que, no Século XIX, no começo da eletricidade, havia um certo fascínio pela eletricidade estática, então chamada la physique amusant (a física recreativa). Frequentei a Biblioteca Nacional de Paris, debrucei-me sobre velhos livros especializados, copiei uma série de observações dos cientistas daquela época, utilizando-as e desenvolvendo-as para aplicar os princípios da eletricidade estática na construção dos meus quadros-objetos. Hoje em dia, já cataloguei determinados princípios, o que não me obriga mais, como fazia antigamente, a pesar e a testar cada um dos elementos pois o emprego errôneo de um simples pigmento pode alterar todo o funcionamento da obra, como, também, a distância em que eles se encontram no fundo, a posição do quadro-objeto na parede ou fora dela podem modificar o comportamento. E a evidenciação de um fenômeno quase sem intenção estética.

E como é desenvolvido o processo de criação e de execução de suas esculturas?

— Eu utilizo formas muito simples, nas quais crio acidentes e ponho linhas que servem tanto a mim como ao observador, para evidenciar, também, esses acidentes nas superfícies dos volumes que eu concebo ao estruturar as minhas obras. Tal como ocorre com os quadros-objetos, as esculturas são colocadas, também, quase sem aquela intenção estética. Representam uma evidência.

Quer dizer, então que sua arte não é de forma alguma o resultado de uma explosão do inconsciente, reservado ao consciente o papel de comandar a execução. O consciente gera a ideia e programa a execução?

— Certo. É uma arte consciente, pensada, refletida, programada. Inclusive, por exemplo, os meus desenhos que estão sendo apresentados Brasília. A série está desfalcada em virtude das mostras realizadas anteriormente em Fortaleza e em São Paulo. Trata-se de uma coleção de 32 desenhos de pura composição, obedecendo rigorosamente a um programa: 2 formas geométricas que são acopladas de duas maneiras diferentes. Esse programa não foi desenvolvido com o computador, o que ocorreu com outra programação, que executei anos atrás, na qual fiz 180 variações com um conjunto de 4 formas. Na presente exposição temos sempre 2 formas justapostas e realçadas com um pouco de lápis. Essas foram as obras que trouxe para o Brasil. Duas séries de desenhos de pura composição: uma baseada em 2 formas, acopladas de maneiras diferentes, e outra formada por 3 pequenos quadrados reunidos por 1 vértice: dentro e fora desses quadrados, determino, movimento e crio espaços, tanto no interior como no exterior das três formas.

Você abandonou completamente a gravura em metal?

— Completamente, não. Creio que provisoriamente. Com meu temperamento, não posso ser exclusivamente gravador. Além da gravura, sinto necessidade de ter nos desenhos programados, nos quadros-objetos, que são os excitáveis, e nas esculturas, outras tantas formas de expressão. Considero a gravuramuito interessante mas muito limitada para mim. Ademais, ela absorvia todo meu tempo, não me permitindo dedicar-me a outras coisas no campo das artes visuais. Estava ligado a casas de edições, o que me obrigava a fazer trinta gravuras anualmente. Um dia, decidi abandonar a gravura. Evidentemente, foi muito difícil porque esse gênero de arte gráfica me assegurava uma renda fixa muito importante. A gravura é muito bem paga pelos editores e muito bem vendida na Europa. E assim, deixava uma coisa certa por uma coisa aleatória. Era conhecido e aceito largamente como gravador, e entrava no mundo das artes plásticas, percorrendo novos caminhos, fazendo quadros-objetos, esculturas e desenhos de pura composição.

Mas, tendo vencido essa mudança de comportamento como artista criador, você se encontra igualmente em qualquer uma daquelas formas de expressão?

— Encontro-me muito bem. No momento, estou muito satisfeito comigo mesmo visto como tudo quanto faço me interessa, me diverte, me inquieta e me tranquiliza. Dá-me paz. Tenho a impressão de que este é o problema de todo e qualquer artista criador: enquanto a coisa diverte, inquieta e tranquiliza, ele procura manter-se em determinada forma de expressão. E somente irá abandoná-la quando ela deixar de se divertir, de interessar, de inquietar e de tranquilizar.

Radicado há longo tempo em Paris, realizando exposições na França, na Suiça, e na Itália, poderia dizer quais os artistas brasileiros que têm projeção internacional?

— Eu, Toledo Piza, Sergio Camargo, Frans Krajcberg e Flavio Shiro, porque todos nós vivemos na Europa.

— Como explica o fato de, não obstante o Brasil ter grandes artistas que dificilmente obteriam posição no mercado de obras de arte do exterior, somente vocês têm essa projeção internacional?

— Não é a opinião de um especialista. É tão somente a minha opinião pessoal. Tenho a impressão de que o fenômeno poderá ter a seguinte explicação: Para que um país, enquanto nação, possa ter um lugar determinado e determinante no conceito da arte em sentido universal, é necessário que contribua com uma “escola”, como é o caso dos Estados Unidos da América do Norte, que contribuíram com a pop - art, o hiper realismo e a arte conceitual. Então, eles exportaram alguma coisa de novo, de inédito, de consistente. E nós, sob esse ângulo, não demos ainda qualquer contribuição desse tipo. A nossa contribuição é a título individual. Nós temos artistas seríssimos, consideráveis, mas todos eles agem individualmente. Até hoje, o Brasil não contribui com uma “escola”, um fenômeno artístico daquele tipo, destinado a influenciar de maneira marcante a arte atual. No dia em que o nosso país exportar um movimento dessa natureza, como exportou sua música popular, então haverá para nossos artistas aquela projeção internacional. E vou dar um exemplo. Quando cheguei à França, ninguém conhecia a música popular brasileira. O europeu era incapaz de dizer o nome de um cantor ou de um compositor brasileiro. De repente, o Brasil exporta a “bossa nova”, que foi um movimento importante no âmbito musical. Hoje em dia, o mundo europeu conhece Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Chico Buarque de Holanda e outros mais. O público europeu já se familiarizou com suas criações e não mais os associa à nacionalidade. Isto é muito importante. A partir do momento em que a pessoa não é mais associada à respectiva nacionalidade, ela é associada ao movimento. E o artista está implantado internacionalmente.

— Qual a sua opinião acerca da arte brasileira contemporânea a partir dessas últimas décadas?

— Para mim, que estou vindo da Europa, há duas constatações principais: 1º.) O mecanismo de distribuição de obras de arte no Brasil, que antigamente era inexistente, está atualmente recebendo uma perfeita estrutura, pois já temos galerias e marchands de categorias. 2º.) A criação artística em nosso país estáapresentando artistas de alta envergadura, de grande valor. Em São Paulo, por exemplo, onde acabo de passar alguns dias, vi três ou quatro exposições de primeiríssima qualidade, as quais fariam figura em qualquer galeria do mundo de nossos dias. Alias, nao estive no Rio de Janeiro, mas sei que, nessa cidade, há, também, artistas de raro valor, que obteriam êxito em qualquer lugar da Europa, o que, muitas vezes, não implica em sucesso comercial, pois esse último fica a depender da forma pela qual são feitos os lançamentos, permitindo maior ou menor penetração.

Finalmente, onde vem realizando exposições na Europa?

— Eu exponho pouco na França, não obstante estar plenamente integrado em seus círculos artísticos, por isso que em Paris são raras as galerias que trabalham com obras da corrente a que estou filiado. O maior número das minhas exposições está na Itália e na Suíça. Agora, vou realizar a primeira mostra individual de meus trabalhos na Suécia. Apresentando poucas esculturas, pois trouxe quase todas para o Brasil, duas séries de desenhos programados e quadrados-objetos. Trata-se de um convite que me foi formulado pela direção artística da Galeria Elizabeth Haeger, de Gotemburgo, uma exposição que, possivelmente, será apresentada no Museu deMalmo, no norte da Suécia.

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Como referenciar este documento: AULER, Hugo. A arte consciente e programada de Sérvulo Esmeraldo. Correio Braziliense, Brasília. 11 out. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12628.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12670

Tipo de texto: Coluna social

Veículo: Correio Braziliense

Local: Brasília

Data: 12 de outubro de 1975

Autor: Gilberto Amaral

Imagem: Não contém imagens

Título: Queijos e Vinhos


O meu amigo jornalista ARI CUNHA e dona LOURDES reuniram um grupo de amigos em seu apartamento para uma noite de queijos e vinhos das melhores qualidades e apresentar o famoso pintor cearense, há 18 anos radicado em Paris. SÉRVULO ESMERALDO. Sobre a mesa, uma grande quantidade de “fromages” e num cantinho, o legítimo provolone, fabricado em São Sebastião do Paraíso e quem tem no ARI um grande admirador. Bisnagas com mais de metro foram digeridas com os deliciosos queijos e vinhos e num pratinho botões de palmas que eram colocados nos pratos, num toque delicado daqueles que sabem receber bem. Nesta noite “internacional” cearense estavam presentes o senador JOÃO CALMON; o jornalista EDILSON CID VARELA (mostrando o seu “hobby” que é tocar piano) e dona NITA; o chefe do Gabinete Civil do Governador, JORGE DA MOTA E SILVA (entusiasmado com o turismo e recém chegado dos Estados Unidos) e dona SHYRLEI; deputado FLÁVIO MARCÍLIO e senhora; ministro JORGE RIBEIRO e dona LUCIANA; os jornalistas HUGO AULER e senhora e JOSÉ HELDER DE SOUZA; o professor CANUTO MENDES DE ALMEIDA, da sociedade paulistana e ex-Procurador Geral da República num dos Governos desta República; e os advogados LUIS CARLOS BETIOL e PEDRO HENRIQUE TEIXEIRA. Quem também deu um show de piano foi o professor CANUTO que contou a este cronista que sua bonita mulher IDALI, está cursando o segundo ano de direito na universidade Mackenzie de São Paulo, SÉRVULO ESMERALDO, que podemos denominar “um pintor do mundo”, pois expõe nas maiores capitais da Europa, está mostrando seus trabalhos no “mezanino” do Hotel Nacional.

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Como referenciar este documento: AMARAL, Gilberto. Queijos e Vinhos. Correio Braziliense, Brasília. 12 out. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12670.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12423

Tipo de texto: Perfil

Veículo: Estado de Minas

Local: Belo Horizonte

Data: 1º de agosto de 1976

Autor: Celma Alvim

Imagem: A matéria apresenta duas fotografias contendo obras de Sérvulo Esmeraldo no espaço expositivo.

Título: Sérvulo Esmeraldo: itinerário de um artista


Não há, por certo, uma data-limite para o começo do envolvimento de Sérvulo Esmeraldo com as artes plásticas. O começo foi o próprio brinquedo, naquele engenho do Ceará. Mas, foi por volta de 1945 que o artista começou realmente a definir-se, impondo-se uma certa disciplina e ordem de trabalho. Sozinho, no Crato, carecia totalmente de informações. Poucos livros, descobertos na biblioteca pública local, forneceram-lhe os primeiros subsídios. Depois, um incidente de percurso, fez com que deixasse o colégio onde estudava, em sua terra natal e se fixasse em Fortaleza.

Nesse tempo, introduziu-se na Associação Cearense de Artes Plásticas, grupo formado por Inimá de Paula, Antônio Bandeira, Aldemir Martins e outros. Trabalhou ativamente com o grupo, participando então de várias exposições, ilustrações de livros e revistas, e fazendo xilogravuras, expressão a qual se dedicou com verdadeira paixão.

Em 1951, terminado o curso científico, decidiu fixar-se em São Paulo. O objetivo era, então, tornar-se arquiteto. O elo com as artes plásticas, num grande centro cultural, foi cada vez mais se fortalecendo, principalmente pelos contatos com o Museu de Arte Moderna, e amizades feitas com Lívio Abramo, Marcelo Grassmann, Bruno Giorgi e outros. A ideia de se tornar arquiteto foi se diluindo, culminando, finalmente, com o abandono dos estudos. Neste tempo foi desenhista técnico, vendedor de livros, profissões que lhe permitiam trabalhar parcialmente, dedicando o seu tempo livre à gravura. Diversos prêmios em salões — o primeiro, o Salão de Abril — foram estimulando o jovem artista.

Em 1956 fez a sua primeira individual em São Paulo, Clube dos Artistas e Amigos das Artes. Neste mesmo ano, ganhou bolsa de estudo do governo francês. Depois de uma exposição de xilogravura, no Museu de Arte Moderna de São Paulo, agosto de 1957, seguiu rumo a Paris.

Em Paris, a adaptação foi rápida. Frequentou a Escola de Belas Artes (litografia) e o atelier de Henri Friedlaender. Fazia então muita gravura em cobre, descobrindo a técnica de água-tinta, água-forte e buril. Começou a vender suas gravuras e a participar de pequenas exposições.

Em setembro de 1959, casou-se com Anne Houelaque. Em 1961, trabalhou para o recém criado Museu da Universidade do Ceará. Organizou a primeira exposição de gravura popular brasileira no exterior, Bibliothèque Nationale de Paris. Em 1962, veio ao Brasil a convite da Universidade do Ceará, expondo então no Rio (galeria Relevo), Recife e Ceará. Pouco antes, expunha em Paris na Galeria Fanal e La Hune com oargentino Krasno e o sueco Uif Trotxis.

O seu retorno à França marca o início de suas primeiras experiências com arte cinética. Surgiram seus objetos e caixas. Sua gravura mudou muito e a sua produção foi bastante escassa neste período. Apesar disto, expõe relevos e gravuras em Veneza.

Do reconhecimento com Serge Poliakoff surgiu oportunidade para a expansão de seu trabalho. Fez então uma série de gravuras e uma imensa tela (9cm x 2m) a óleo, para o Hotel Carlton de Cannes. A seguir, vem o início de suas pesquisas com eletricidade estática. No ano de 1967, surgem os primeiros múltiplos e os “Excitáveis”, expostos na Galeria Claude Givandam. Desenvolve os seus “Excitáveis” e esculturas fazendo a sua grande exposição na Galerie La Pochade de Paris e White Gallery de Lausanne.

Quinta-feira última, Sérvulo Esmeraldo inaugurou a sua exposição no Palácio das Artes. O conjunto apresentando é uma pequena amostragem da excelente produção deste brasileiro que tão bem se impôs na Europa.

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Como referenciar este documento: ALVIM, Celma. Sérvulo Esmeraldo: itinerário de um artista. Estado de Minas, Belo Horizonte. 1º ago. 1976. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12423.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12650

Tipo de texto: Notícia

Veículo: ARS Media

Local: Belo Horizonte

Data: 1º de agosto de 1976

Autor: Márcio Sampaio

Imagem: A matéria apresenta duas fotografias; uma delas, contendo uma escultura de Sérvulo Esmeraldo e a outra uma pintura de Rubem Valentim.

Título: Rubem Valentim e Sérvulo Esmeraldo em exposição na Grande Galeria

Dispostos à rigorosa construção no plano e no espaço, cada um, entretanto, trilhando caminhos próprios e com intenções diversas, Rubem Valentim e Sérvulo Esmeraldo se acham representados em duas exposições que o Palácio das Artes está apresentando desde quinta-feira, na Grande Galeria, trazendo ao público mineiro a oportunidade de conhecer — e também confrontar — a obra de dois dos mais significativos artistas brasileiros de hoje.

Nascido em Salvador, Bahia, em 1922, Rubem Valentim é formado em odontologia, tendo abandonado a clínica por volta de 1948, quando decidiu dedicar-se unicamente à arte, que há muito vinha desenvolvendo autodidaticamente. Sérvulo Esmeraldo é natural da cidade cearense de Crato, onde nasceu em 1929, radicando-se mais tarde em São Paulo, aí trabalhou exclusivamente como gravador; em 1957 foi para a França, residindo desde então em Paris.

ORIGENS E FINS

Nascidos e vivendo a infância em locais onde a força-da-terra atua poderosamente no inconsciente e no desenvolvimento da sensibilidade, envolvendo irresistivelmente o homem com a imposição de uma vivência dos mitos e de uma realidade social bem caracterizada, estes dois artistas carregam em sua obra a marca dessas injunções. Através desses dados, podemos compreender melhor o desenvolvimento de suas respectivas obras, que se dirigiram para uma síntese de formas, ao despojamento e ao rigor, sem contudo esvasiar a possibilidadede uma comunicação poética, através de signos habilmente articulados e perfeitamente construídos.

Se em Rubem Valentim, é perfeitamente visível — e isso representa o fim específico de sua obra — o approach às constelações sígnicas da cultura afro-baiana, em Esmeraldo é igualmente clara a manipulação de símbolos não atávicos, mas da cultura contemporânea, como se pode perfeitamente observar pela própria escolha de materiais sintéticos, sua aproximação do design, a modulação de formas simples obedecendo a um programa estabelecido por computador, etc.

Poderíamos então afirmar que os dois artistas se encontram no presente, no agora: Rubem Valentim com o seu apelo “à simbologia mágica, a recordação inconsciente de uma grande e luminosa civilização negra anterior às conquistas ocidentais”, como disse Giulio Carlo Argan, chegando a uma síntese que carrega o alto teor de contemporaneidade; Sérvulo Esmeraldo afirma a possibilidade de futuro, em sua caminhada construtiva mas também epidermicamente sensível, onde há o jogo, o brinquedo, a possibilidade de interminável recriação da parte do próprio artista e também do público, circunstancialmente comprometido com o programa estabelecido pelo artista. Enfim, em ambos os artistas, o incontrolável poder mágico de suas obras, reconduz-nos a um espaço que nos permite ao jogo da leitura e recriação mental e do sensorial. Fatalidade da arte brasileira, que conjuga a festa e a construção.

RUBEM VALENTIM

Nascido em Salvador, Bahia, em 1922, em 1948 passa a dedicar-se à pintura, que desenvolvera, desde cedo autodidaticamente, abandonando a clínica odontológica, que fora sua profissão principal. Em 1957, fixa-se no Rio, e em 1962 obtém medalha de ouro do Salão Paulista de Arte Moderna, iniciando uma série imensa de importantes premiações, entre as quais o Prêmio de Viagem ao Estrangeiro, do Salão Nacional de Arte Moderna, em consequência do qual permanece em Roma durante três anos; prêmio especial da Bienal da Bahia, por sua contribuição à Arte Brasileira, prêmio da IX Bienal de São Paulo, Prêmio de Viagem à França do I Salão Globalde Brasília e I Prêmio de Objeto no Panorama Nacional de Arte Brasileira, do Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Realizou numerosas exposições individuais no Brasil e no exterior, sendo sempre recebidas com entusiasmo pela crítica e público. Participou de vários salões, da Bienal de São Paulo, da I Bienal de Arte Construtivista de Nuremberg, Alemanha, e em 1975 foi um dos dez artistas convidados para participarem da manifestação “Arte Brasileira” relativa ao X Salão de Arte Contemporânea de Campinas, apresentadainicialmente nessa cidade paulista e posteriormente no Rio (MAM), São Paulo e Brasília. Em 1975 apresentou

na sala de exposições da Fundação Cultural de Brasília um grande panorama de sua obra (200 trabalhos), que depois foi apresentado na Bolsa de Arte do Rio.

Para o crítico Frederico Morais — autor de um belíssimo audiovisual sobre a obra do artista — “Valentim, partindo de uma vivência pessoal, direta dos símbolos religiosos e afro-baianos, num aprofundamento constante em busca de sua validez universal, chegou a uma situação que ultrapassa o tempo, a própria história. Eles se referem aos símbolos e termos, permanentes no homem — daí que sua límpida geometria sígnica fala também de outras e muitas civilizações perdidas, como a pré-colombiana, por exemploque permanecem no inconsciente coletivo. No fundo, seus signos e sinais, distribuídos com rigor simétrico e com amor à ordem, sugerem máquinas, estruturas mecânicas e de nossos hábitos visuais. Valentim rompe assim com as suas convenções geográficas e históricas e, como poucos, consegue a síntese aparentemente absurda e inatingível do velho e do novo, do arcaico e do atual”.

SÉRVULO ESMERALDO

Nascido em Crato, Ceará, em 1929, transferiu-se para São Paulo. Inicialmente xilogravador, e em seguida também desenhista, hoje firmando-se com a linguagem do desenho e da escultura, vive desde 1957 em Paris. Realizou até hoje 24 exposições individuais nas principais galerias do Rio e de São Paulo, bem como em Belo Horizonte, Brasília e Fortaleza. Na Europa, expõe frequentemente na White Gallery de Lausanne, Suíça,exposto individualmente na França, Itália, Portugal, Alemanha, Luxemburgo e em outros países. Participou da Bienal de São Paulo, Trienal de Milão, Exposição Internacional de Gravura de Ljubliana, Bienal de Cracóvia, Trienal de Grenchem, Suíça, Salon Comparaison de Paris, coletiva de artistas latino-americanos em Paris, na Dinamarca, Suécia e Noruega. No ano passado, participou da mostra “L’ldée et la Matière”, na Galerie Denise Renée (Paris), ao lado de Albers, Honneger, Le Parc, Morelet, Soto Tomaselo, Vasarely e Ivaral.

Muitos críticos brasileiros e estrangeiros têm escrito sobre sua obra. Aracy Amaral, em longo texto publicado no nº. 5 da “Vida das Artes” diz “... o que nos parece mais observável neste artista brasileiro residente ainda em Paris, saído daqui gravador e que nos retorna multiplicado em desenhista e escultor, o que mais nos interessa nele é sem dúvida esse seu debruçar-se sobre a energia (o corpo em consequência direta) a despeito de, aparentemente se poder rotular de geométricos seus trabalhos. O táctil, a superfície, o toque. E nisto não me parece ele distante dos problemas vivenciados por uma Lygia Clark, um Hélio Oiticica, que também chegaram ao térmico-epidérmico depois de terem cumprido prolongado estágio de intimidade com o abstrato-geométrico”.

Jean Clarence Lambert, em seu livro “Deppassement dans L’Art”, assim se refere ao trabalho de Esmeraldo: “... Certamente, os objetos de Esmeraldo exigem uma afinação — um refinamento — da sensibilidade, o que está cada vez mais raro na época dos boeings, e dos vídeos gigantes. Porém, é necessárioesforço: no passado, a copa de uma árvore vibrando sob a asa do vento, hoje, o jogo cintilante de minúsculos espelhos dentro de seus volumes transparentes, a mágica visível dos viveiros de hastes, de fios e de arruelas que, ao menor desejo manifestam por alguns instantes a coreografia invisível da matéria”.

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Como referenciar este documento: SAMPAIO, Márcio. Rubem Valentim e Sérvulo Esmeraldo em exposição na Grande Galeria. ARS Media, Belo Horizonte. 1º ago. 1976. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12650.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12636

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Revista Vida das Artes

Local: Rio de Janeiro

Data: Setembro de 1975

Autor: Aracy Amaral

Imagem: A matéria apresenta uma imagem de uma obra de Sérvulo Esmeraldo.

Título: Sérvulo Esmeraldo: Da Gravura ao Tato


Sérvulo Esmeraldo expôs recentemente desenhos e esculturas em São Paulo, no Gabinete de Artes Gráficas. Este artista cearense, de Crato, que não expunha há mais de cinco anos em São Paulo, de onde saiu em 1957, quando com uma bolsa do governo francês foi trabalhar em Paris, lá fez carreira e reside até hoje, a ponto de não conhecer mais as gentes do meio artístico de São Paulo ou Rio, e de também ser quase — ou totalmente desconhecido de uma geração mais jovem de artistas nativos.

Quando saiu de São Paulo, Sérvulo fazia gravuras em madeira, com formas vegetais ou outras, como caracóis, por exemplo, nas quais a estilização já era bem desenvolvida, denunciando uma certa busca de ritmos. Em Paris, no primeiro golpe seu trabalho acusaria uma alteração, e ele mergulharia na gravura em metal (experiência que, segundo diz, foi negativa, pois a técnica o impulsionou a uma tendência com a qual não se identificava, o informal), que cultivaria até por volta de 1963. Foi exatamente a partir dos “excitáveis”, que ele começa a desenvolver em 1964 (pequenos bastões de madeira-balsa, colocados equidistantemente sobre umasuperfície quadrada), e que apelam não apenas para o visual do espectador, como para sua participação, posto que é a eletricidade estática que desloca os bastões a uma aproximação física, que Sérvulo começa a retornar ao geométrico, a uma redução de elementos que se tornaria a partir de 1964 uma característica de seus trabalhos. Aliás, esses “excitáveis” seriam realizados não apenas com bastões, mas também com diversos outros materiais, como fios, papel e vários pós (de enxofre, grafite e outros). Em 1966 aparece o “encaixe” (ou cunha), pequena peça que seria multiplicada (peça cúbica retangular fendida ao meio diagonalmente, e cujas duas partes se encaixam através de um escalonamento angular), e tornar-se-ia o ponto de partida para o surgimento da curva escalonada, tema que Sérvulo utilizará em infinitas variações no desenho e aos poucos no objeto — ou escultura, pois sua atividade como gravador cede lugar à do escultor. Isso, embora observemos que a gravação permaneça nesses desenhos que vimos expostos no Gabinete de Artes Gráficas através da folha prensada a seco e depois trabalhada manualmente, desenhos que decorrem da ondulação básica, provocatória, em suave relevo. E neste ponto vemos como também nos trabalhos de Sérvulo (como curiosamente nos de outros brasileiros em Paris, Piza e Camargo), o relevo, a sombra, assumem papel de destaque, sendo que em Sérvulo tanto nas peças como nos desenhos.

E o mesmo escalonamento inicial da peça que desencadeou toda esta série de variações ondulantes em sua poética espacial se faz presente na linearidade elegante de suas esculturas em plexiglass, importa o caráter esteticista da forma. Mas surgem inesperadamente sobre as superfícies das peças branco-negras súbitos “intervalos” desconectados com o aparente rigor da obra quando observada à primeira vista. E, contrastando com a esperada simetria da forma, percebemos reentrâncias assimétricas, porém ricas, essas irregularidades, na apreensão da luz.

Luz: é este um elemento físico com que joga Sérvulo, assim como também recorre, como vimos, à eletricidade estática para a alteração de suas composições “excitáveis” à aproximação do espectador. E essa movimentação que obtém, assim como em seu esguio “Parafuso” sonoro, não é decorrente de artifícios elétricos ou de processos de maior complexidade, porém fruto de observação direta de fenômenos físicos, apreendidos e projetados intuitivamente. Sérvulo aqui tem uma posição definida: não é um pseudo-cientista, é um artista, que lida com valores plástico-sensoriais.

Assim também a sua “Coluna” em madeira, estruturada com módulos — cuja justaposição poderia resultar em três variações desta peça —, e cuja leveza é comparável aos jogos lúdicos dos papéis dobrados de um origami.Portanto, em relação ao que faz atualmente, Sérvulo especula ao máximo as variações conseguíveis a partir de um número reduzido de módulos básicos. Exemplo desse trabalho serial é o seu belíssimo álbum com 14 serigrafias — Variações sobre uma curva — editado em 1973 sob o título “Perpignan”, com uma introdução poética de Jean-Clarence Lambert. Nessas serigrafias (em tiragem de 50 exemplares), toda a inventividade oriunda de um mesmo elemento — a curva escalonada — decorre de sua variabilidade cromática, do enriquecimento que flui através da cor, agindo como transformadora do tema inicial.

E porque, de repente, este turista brasileiro já profissionalmente “dépaysé” expõe entre nós? É inútil procurar razões outras que não as afetivas, o desejo de rever a família, talvez, ou o desejo de refazer contatos, uma vez que do ponto de vista econômico Sérvulo Esmeraldo, como aliás Piza e Flávio Shirò, por exemplo, prescinde, em princípio, do mercado de arte do Brasil para a sobrevivência através de seu trabalho. Ele nos conta realmente como, depois das exposições que já fez e fará aqui no Brasil (em Fortaleza, São Paulo, Rio e possivelmente Brasília), deverá expor em diversos locais na Suécia, nos fala mansamente de seus compromissos para o próximo ano, e das suas exposições já programadas para 1977, concluindo, apenas como constatação, que até 1980 já tem a vida profissional marcada pelas mostras já assumidas, além de ter um contrato com a White Gallery de Lausanne, na Suíça.

Mas o que nos parece mais observável neste artista brasileiro residente ainda em Paris, saído daqui gravador e que nos retorna multiplicando em desenhista e escultor, o que mais nos interessa nele é sem dúvida esse seu debruçar-se sobre a energia (o corpo em consequência direta), a despeito de aparentemente se poder rotular de geométricos os seus trabalhos. O táctil, a superfície, o toque. E nisto não me parece ele distante dos problemas vivenciados por uma Lygia Clark e um Hélio Oiticica, que também, chegaram ao término-epidérmico depois de terem cumprido prolongado estágio de intimidade com o abstrato-geométrico.

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Como referenciar este documento: AMARAL, Aracy. Sérvulo Esmeraldo: Da Gravura ao Tato. Revista Vida das Artes, Rio de Janeiro. set. 1975. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12636.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 


Nº de ordem: 12632

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Jornal do Brasil

Local: Rio de Janeiro

Data: 13 de fevereiro de 1976

Autor: Roberto Pontual

Imagem: A matéria apresenta duas fotografias de obras de Sérvulo Esmeraldo: “Reflexos” gravura a buril sobre cobre de 1965 e “Ondas” pintura em acrílico de 1974.

Título: Esmeraldo do Crato à Paris


Seria seguramente proveitoso proceder ao estudo de como, do fim da II Guerra Mundial para cá, alguns artistas brasileiros, vivendo na Europa ou nos EUA, tiveram pouco a pouco sua obra ali reconhecida. Tal estudo permitiria conhecer e comparar, em bloco, não só as razões que os levaram a afastar-se da terra de origem, voltando ou não a ela periodicamente, como também os modos pelos quais essa emergência no plano internacional foi-se caracterizando. A verdade é que no período de 30 anos, desde 1945, após o restabelecimento do diálogo entre as nações, um número razoável de artistas plásticos nascidos no Brasil alcançou ou está alcançando lá fora a importância de um posto confirmado para o seu trabalho, de igual a igual com os artistas das diversas cidades que escolheram por nova residência.

Caso típico e pioneiro no período em causa foi o do pintor cearense Antônio Bandeira, que já em 1949 se ligava a Wols e Camille Bryen, no entusiasmo pela abstração informal, e cuja morte na capital francesa, em 1967, o encontrou com obra em boa acolhida local. Depois dele, receando omitir nomes nessa lista sumária de artistas brasileiros que optaram por uma realização fora dos nossos limites geográficos, e que certamente a obtiveram no respeito com que vêem sua obra sendo ali encarada, poderia citar Almir Mavignier, Mary Vieira, Sérgio Camargo, Arthur Luiz Piza, Lygia Clark, Roberto Lamonica, Hélio Oiticica, Antonio Dias e Edival Ramosa. Ou mesmo Frans Krajcberg, que embora não nascido entre nós sempre afirmou ser brasileiro a raiz (ironicamente, em duplo sentido, se pensarmos nas suas esculturas com formas vegetais de Minas ou do litoral baiano) de seu trabalho. A esses nomes quero agora acrescentar e comentar o de Sérvulo Esmeraldo, cuja presença no ambiente artístico europeu está ganhando sensível importância.

Cearense como Bandeira, Esmeraldo nasceu no Crato, em 1929. Teve também, tanto quanto o referido pintor, um começo de carreira no seu Estado, inclusive combatendo ali em favor da renovação dos esquemas de produção e consumo de arte, e a sequência natural de atração pelo Sul, fixando-se no final da década de 50 em São Paulo. Mas, desde logo, não foi a pintura o meio que mais o interessou, e sim a gravura, inicialmente em madeira, com influência básica, naquele momento, de Goeldi. E apesar de sua vivência nordestina e da atenção que demonstrou conceder à gravura popular — é autor, por exemplo, do texto introdutório de uma edição francesa da Via Sacra de Mestre Noza, o velho gravador e escultor de Juazeiro do Norte — não demoraria muito tempo para que a gravura de Esmeraldo abandonasse toda intenção figurativa e se deslocasse no sentido de uma abstração simultaneamente vibrátil e contida. Isto se processaria lado a lado com a sua ida para Paris, o aprendizado ali com Johnny Friedlaender e a troca da madeira pelo metal.

Assim, sempre em Paris, por toda a década de 60 ele estaria realizando uma gravura na qual, como disse José Roberto Teixeira Leite, em 1965, a cor era utilizada “com liberdade e fantasia, apelando para recursos de textura que se destinam a excitar o olho táctil, tudo sob uma trama de linhas e de massas sensíveis e expressivas”. Foi com essa gravura, em exposições individuais e coletivas, que se deu o seu primeiro estágio de conquista do respeito internacional. Mais recentemente, de uns oito anos para cá, e sem abandonar a obra gravada, Sérvulo passou a incorporar ao seu trabalho novas saídas. Atraído pelas pesquisas cinéticas, como diversos outros artistas latino americanos vivendo em Paris, ele saltou do plano para o espaço, tanto em seus Excitáveis — superfícies ainda destinadas à parede, porém acrescidas de filamentos móveis aproveitando o fenômeno físico de excitação da matéria — quanto com as suas refinadas e tranquilas esculturas em acrílico. A própria gravura refletiria essa nova vontade de conciliar rigor de construção com liberação lúdica,simplificando-se ao máximo para estimular o olho com a mais intensa das vibrações.

Com os trabalhos da última fase, em exposição lado a lado de artistas como Albers, Le Parc, Vasarely, Soto Honegger, Munari, Morellet e Del Pezzo, cresceu o reconhecimento de Sérvulo Esmeraldo no circuito internacional. Os ecos

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Como referenciar este documento:

PONTUAL, Roberto. Esmeraldo do Crato à Paris. Jornal do Brasil, Rio de Janeiro. 13 fev. 1976. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/12632.pdf>. Acesso em: (data de hoje)