Transcrições de Documentos | Lothar Charoux


Nº de ordem: 20771

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: Correio Paulistano

Local: São Paulo

Data: 1948

Autor: Ibiapaba Martins

Título: Charroux e Toledo Lara


À primeira vista, o conjunto de trabalhos expostos por Lothar Charoux não agradam ou, pelo menos, não agradaram a todos aqueles com quem tenho conversado e que manifestaram francamente sobre o caso. Com mais vagar, porém, examinando melhor as pesquisas técnicas de Charoux, suas invenções na composição, o equilíbrio conseguido na distribuição das cores, chega-se a uma reconciliação com o “abstracionism” cada vez mais envolvente do companheiro de Toledo Lara (exposição conjunta). Achamos que o artista não deve fugir a sua condição humana e, portanto, não deve abdicar do papel que a sociedade lhe reserva, - exigindo dele cada vez maior consciência. Por isso, sempre olhamos com simpatia para aqueles artistas que participam dos sofrimentos e lutas da sociedade e, mais ainda, se é ele um elemento consciente, dotado de uma filosofia prática da liberdade. Não gostaríamos, portanto, que a pintura fosse envolvida inteiramente pelo abstracionismo - angústia, inquietude vã, evasão metafísica - embora sejamos os primeiros a nos entusiasmar com a nobre composição e colorido de certos trabalhos de Charoux. Todavia, este é ainda um “abstracionista”: caminha para lá cada vez mais. Em sua atual exposição, aliás, o que menos há é “abstracionismo” e ninguém chamaria “quadro abstracionista” o “Cristo ao lado dos três ladrões”. Mais algum tempo, porém, e teremos um abstracionista puro, se é que possa haver um “abstracionismo puro”.


Como referenciar este documento:

MARTINS, Ibiapaba. Charoux e Toledo Lara. Notas de Arte, Correio Paulistano, São Paulo, 1948. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em:<http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20771.pdf>. Acesso em: (data de hoje) Acesso em: (data de hoje)



Nº de ordem: 21187

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: Folha da Manhã

Local: São Paulo

Data: 1958

Autor: José Geraldo Vieira

Título: Lothar Charoux


Lothar Charoux é um exemplo desse drama consciente do artista que não se deixou emparedar em sistemas já saturados. Iniciando sua carreira, pintou retratos expressionistas. Na pauta de Soutine, digamos assim. Atento às inovações, percorreu por algum tempo os caminhos comuns por onde passaram muitos dos atuais pintores modernos: o impressionismo, o cubismo, o expressionismo, o purismo, o abstracionismo.

Suas telas A janela e O Aquário, por exemplo, são típicas dessa passagem através de técnicas e formulações do figurativismo das últimas décadas do século passado e da primeira década deste ano. Lógico que no Brasil a iteração de sistemas expressionistas e cubistas se processou já no começo da terceira década. Da mesma forma que o abstracionismo, sob o influxo da Escola de Paris, do purismo e futurismo.

Lothar passou, portanto, com empenho, escrúpulo e critério por diversas tendências e fases artesanais e artísticas, de evidente estética já algo superada. E chegou ao abstracionismo, não por ânsia de criar algo diferente, mas ainda como solfejo de desteridade, de fatura, composição, partindo do ponto zero. Isto é, largando de vez o retrato, a pintura de paisagem, de interior, e recomeçando a pintura de criação estruturada.

O antigo desenhista geométrico encontrou, finalmente, o seu aeródromo para alçar voo ortodoxo de piloto não mais de provas, mas de trajetórias, no concretismo. O júri que lhe deu uma láurea no Prêmio de Arte Contemporânea como resultado de sua participação no I Salão Nacional de Arte Concreta, não premiou portanto um ousado pioneiro que inventasse uma técnica nova de desenho. Premiou um desenhista que se livrou de todos os seus passaportes já peremptos.

Aquela base manual do desenho geométrico onde Lothar Charoux se soube consolidar desde cedo, valeu-lhe como capacitação para, após tantas experiências, recomeçar seu caminho. Mercê disso, pode o artista iniciar suas variações sobre triângulos, losangos, obtendo desenvolvimentos, posições estáticas e lances dinâmicos que são outros tantos módulos de criação. Suas variantes sobre temas lineares, suas soluções aos problemas de espaço e estrutura, suas espirais em posição áurea, suas trajetórias em ritmos dentro de espaços noturnos, negros, onde o seu tira-linhas descreve constelações e percorre segredos de galáxias - tudo isso prova o seguinte: possibilidades ilimitadas de criar em planos chapados elementos gráficos com função plástica de efeito belíssimo. Em meio ao mundo caótico, ao que Victor Chab chama tão bem o descrédito da harmonia, e do verdadeiramente estético, os desenhos geométricos de Lothar Charoux provam que o artista deve permanecer dentro das leis de ritmo, impor seu critério no plano espacial. Parece-nos que sua arte, ora no mundo industrial, ora no mundo cósmico, aparentemente objetiva e prosaica como síntese de leis equilibradas, também se nutre de mistérios ideológicos e sentimentais, não é mera realização mecânica coexistindo com a técnica, mas possui mensagem poética, por sua serenidade e por seu contato com a magia.

Sua obra consciente e lúcida não é nunca uma série de variantes dum diagrama mecânico de intelectualismo árido. Contém em si o prestígio do sacrifício ascético das pesquisas, aquele mistério místico das comunidades que atingem o sobrenatural através de constantes despojamentos de potenciais nocivos, até que alcançam o prodígio da levitação. Libertando-se da superfície, dos suportes, criando em termos formais e espaciais, Lothar Charoux concilia em sua arte aquele dilema gráfico-plástico da sua juventude. É um escultor que desenha no espaço.


Como referenciar este documento:

VIEIRA, José Geraldo. Lothar Charoux. Artes Plásticas, Folha da Manhã, São Paulo, 28 set. 1958, p. 4 - Assuntos Culturais. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/21187.pdf>. Acesso em: (data de hoje)



Nº de ordem: 21144

Tipo de texto: Nota em jornal

Veículo: Jornal do Brasil

Local: Rio de Janeiro

Data: 20/06/1962

Autor: Ferreira Gullar

Título: Desenhos de Lothar Charoux


A Galeria Aremar, de Campinas, estado de São Paulo expõe atualmente uma série de desenhos de Lothar Charoux, artista que integrou o movimento de arte concreta, participando das mostras coletivas do movimento e realizando algumas exposições individuais em S. Paulo e no Rio. A atual mostra dos desenhos recentes de Charoux é apresentada pelo crítico Mario Pedrosa - redator licenciado desta coluna e seu fundador. Aproveitamos a oportunidade para trazer aos leitores do JB a voz autorizada de Mário Pedrosa, transcrevendo aqui o que escreveu para a mostra de Lothar Charoux na Aremar. O texto é o seguinte:

“Lothar Charoux é, antes de tudo, um artista consciencioso e coerente. Nada do que faz é indiferente. Suas mostras valem pelo testemunho, que sempre nos dão, dessa coerência. Sua arte é feita de rigor, mas de um rigor que se disfarça. Não por timidez ou indecisão, mas por pejo ou pudor, talvez. Pudor que indica na personalidade do artista um certo quê de irônico e dogmático embora não o mova a dúvida do rumo artístico que tomou. Isso faz uma personalidade simples, límpida e complexa, apesar das aparências. Seu desenho é, por tudo isso, uma pesquisa, diríamos, ardente de precisão e de contraprecisão. Quer dizer, a precisão tende a ser controlada pela imprecisão como o positivo é controlado pelo negativo. Na pequena mostra de hoje esse traço agora específico de sua arte se apresenta claramente. Apreciem-se os desenhos de figuras geométricas com linhas paralelas; estas dividem o espaço, e, na sucessão, são interrompidas pelos quadrados, nascente de uma refração que o quebrado das linhas ritmiza e os traços duplos em cor acentuam. O rigor aqui é procuradamente, quase diríamos, liricamente violentado por esse elemento contraditório que dá a refração. Os desenhos em círculos são de direções diferentes ou se voltam sobre si mesmos, como um passo em dança. Charoux já imaginou também uma espécie de quadro ou desenho giratório. Em que de um lado o espaço é rigorosamente dividido por ponto ou linha, enquanto que no outro a marcação é proposta, mas sem atender aos rigores da proporção. Cabe ao espectador , ao girar da plancha, verificar se a proporção pelo sensível ou pelo rigor coincidem ou não, ou qual a que encanta mais.

A última invenção do artista é a dos quadros compostos de que há um exemplo na mostra atual. Trata-se de suporte e mais nove quadrados. Esses são desmontáveis, podendo ser organizados como se queiram: arrumá-lo em frizo, horizontalmente ou sem sentido vertical. Também podem ser repartidos num canto da sala, pelas paredes que convergem. Tudo dependendo do gosto pessoal ou do espaço a expor, de que se disponha.

Esse artista concreto guarda da escola o rigor e a invenção; do artista em geral, sem qualquer escola, a sensibilidade; da pessoa humana autêntica, a despretensão, o humor.”


Como referenciar este documento:

GULLAR, Ferreira. Desenhos de Lothar Charoux. Artes Visuais, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 jun. 1962, p. 4 - Cad. B. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/21144.pdf>. Acesso em: (data de hoje)



Nº de ordem: 21591

Tipo de texto: Entrevista

Veículo: A Tribuna

Local: Santos-SP

Data: 19/05/1971

Autor: -

Título: A simplicidade de L. Charoux nos seus desenhos geométricos


Traços formando figuras geométricas que dão ideia de vibração, em guache ou polimere, sobre fundo preto. Triângulos, quadros e círculos, sobrepondo-se uns sobre os outros, às vezes com o recurso de duas cores, de preferência o verde e o vermelho. “Num trabalho, um traço pode bastar. E é necessário mais que isso?” Quem faz a afirmação e a pergunta é o próprio artista.

Lothar Charoux, austríaco de Viena, há 43 anos no Brasil, com quase 20 prêmios ganhos em importantes salões do país e participação em nove Bienais de São Paulo, Charoux um desenhista com jeito de grande músico - “as pessoas acham que minha figura lembra mais a de um mestre ou de um maestro importante” - mas que sempre desejou ser escultor. Charoux, com seus desenhos geométricos que refletem a simplicidade de sua personalidade e a filosofia de sua vida, estão na galeria de arte Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. A inauguração da exposição foi ontem, às 19 horas, e ficará aberta até meados de junho, diariamente das 17 às 22 horas, na rua Jorge Tibiriçá, 5.

“É interessante. As pessoas gostam de complicar tudo. E no fundo, o que mais as impressiona é a própria simplicidade. Tudo gira em torno de retas e de três figuras fundamentais - o quadrado, o triângulo e o círculo. A perfeição da linha é que causa o efeito. As pessoas se espantam ao verem as pirâmides do Egito. Mas não é por sua grandiosidade. O que surpreende é a perfeição da linha. Acontece a mesma coisa quando alguém vê o mar pela primeira vez. Na realidade, só existem duas cores: o verde e o azul separados por uma linha, a do horizonte. É isso que marca. É tudo tão simples de ser analisado. Mas há quem queira sempre complicar” - explica ele.

Charoux, 59 anos de idade, aparentando ter bem mais, acha que na vida acontece a mesma coisa: “As pessoas se importam muito com tudo. Querem explicações demais. E acabam se esquecendo que a vida é para ser vivida. Para viver basta se desligar. Eu tenho essa capacidade. Desligo-me totalmente de tudo. Só assim posso sentir as coisas”.

Mas, embora confessando esse desligamento, ele não vive alheio ao que acontece à sua volta: “Desprender-se das futilidades que às vezes nos tornam infelizes não significa ignorar o que passa no mundo. Eu, por exemplo, tenho esse modo de pensar, mas no meu rosto tenho marcas de muitos sofrimentos. O que Hitler fez ao meu povo não poderia ser ignorado. As tragédias, as guerras que existem todos os dias são sempre sentidas. Mas é possível e necessário alhear-se dos problemas”.

“Às vezes - continua - começo a complicar os meus desenhos, mas logo reformulo tudo e volto à síntese. Em certas ocasiões faço quadros que têm apenas um traço. Para mim, aquele traço diz tudo”. Geraldo Ferraz, crítico de arte, é da mesma opinião. Diz ele na apresentação do artista: “Charoux partiu decisivamente para uma redução do último sinal do espaço, no desenho não simplificado mas tomado em sua definitiva configuração linear. Não se lhe dá que exista o ponto - o que importa para ele é colocar no espaço a lembrança da estrutura, Então poderemos nós, lentamente, evocar mediante tais indicações rígidas, esqueletos de esquemas, aquilo que foi outrora a forma a que ele não mais se subordina”... “Inclino-me ainda sobre essa área de mistério infundível, que tão economicamente se manifesta, se revela, faz sua confissão ardente embora silenciosa, de um silêncio poético - aquele silêncio de Lorca, “em que resvalam montes e ecos e faz curvar os frontes para o chão”.

Lothar Charoux, que já pertenceu ao grupo dos concretistas da capital, diz que não sabe e não se preocupa com classificações e escolas, “um pouco porque sou preguiçoso e geralmente não compareço às reuniões que os artistas de um mesmo grupo gostam de fazer”.

Mariana Rell, artista que estava presente à inauguração da mostra, afirma que Charoux, na verdade, é muito personalista e não se subordina aos modismos. “Nunca o vi fazendo algo de que não gostasse. Ele é muito autêntico. Tem muita personalidade”.

Charoux estudou no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, seguindo um curso acadêmico que, na sua opinião, “forma ótimos artesãos, mas poucos artistas''. Por isso procurou se libertar das influências da escola e aponta Waldemar da Costa, um dos mestres de pintura que conheceu no Liceu, como uma boa influência em sua vida artística. Atualmente, Lothar Charoux vem-se dedicando também à pintura e pretende igualmente fazer escultura, “coisa que eu sempre quis fazer mas por falta de espaço e dinheiro fui sempre adiando”.


Como referenciar este documento:

A simplicidade de L. Charoux nos seus desenhos geométricos. A Tribuna, Santos, 19 mai. 1971, p. 6. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/21144.pdf >. Acesso em: (data de hoje)



Nº de ordem: 20605

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Folha da Tarde

Local: São Paulo

Data: 17/05/1974

Autor: Ernestina Karman

Título: Lothar Charoux


O museu de Arte Moderna de São Paulo, no Ibirapuera, está apresentando uma retrospectiva da obra de Lothar Charoux, artista nascido em Viena que consideramos brasileiro e nosso desde que veio para este país em 1928.

Lothar Charoux dispensa apresentações, referências e indicações de prêmios e exposições.

Tivemos conhecimento de que alguém - certamente algum esnobe ignorante dos valores artísticos de sua própria terra - perguntou a Charoux quando apresentaria seus novos “Vasarely”.

Não podíamos omitir esse fato e agora perguntamos: quando o governo brasileiro pensará em divulgar no Exterior a obra dos artistas nacionais do gabarito de Lothar Charoux.

Temos a certeza de que então Vasarely faria o que o esnobe não fez, ou seja, ser o primeiro a proclamar a personalíssima arte de nosso grande pintor e desenhista.

A oportunidade que o MAM nos dá de tomar contato com a evolução de Charoux não pode deixar de ser aproveitada por quantos desejam conhecer o que temos de melhor em artes plásticas.

Partindo do quadro “A cadeira” de 1941, constatamos que Charoux, a princípio um expressionista sensível, soube dar ao banal tema a mesma força de expressão que Van Gogh deu a modelo semelhante.

Acompanhando seu desenvolvimento passamos pelas naturezas mortas, paisagens e retratos de 1945 - cujas pinceladas fortes e cores sóbrias são o ponto alto -, para chegar aos trabalhos de 1948, nos quais os mesmos temas passam a ser tratados de maneira totalmente diferente.

A pintura movimenta-se; as pinceladas onduladas, como que torturadas, levam-nos novamente a pensar em Van Gogh. Não que Charoux se assemelhe a ele pela maneira de pintar, mas por possuir, como ele, a mesma vibração na pincelada.

Com o passar dos anos, as formas simplificam-se, entrosam-se em composições afins ao cubismo até atingirem, em 1948, uma abstração com forte influência do precursor Kandinsky, ao qual não permaneceram incólumes muitos outros grandes artistas.

Eis que em 1951, Charoux busca construções abstratas geométricas, simplificadas formal e coloristicamente.

Passa então por uma delicada fase em que, com apenas “risquinhos”, procura equilíbrios entre linhas e cores. Descobre que traçando o desenho enviesado e apresentando-o horizontalmente, consegue o que denominou "Equilíbrio Restabelecido”.

Depois, o artista ligou-se ao grupo concretista de São Paulo, com trabalhos geométricos, por algum tempo. Eis que, repentinamente, “estoura” Lothar Charoux, diferente, livre para alçar voo, com formas e ideias unicamente suas, tal como a borboleta liberta do casulo.

E esse artista não parou mais de criar e recriar linhas e formas. Estas formas resultam do agrupamento das linhas enfileiradas, em círculos que se interpenetram, em ziguezagues, em quadrados, em retângulos ou em triângulos.

As linhas, ora finas, ora mais largas, negras ou coloridas, tremulam num “op-art” brasileiríssimo, que de internacional só tem a filiação. E foi esse Charoux que mereceu o prêmio de melhor desenhista de 1972, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Não podemos deixar de fazer referência também ao trabalho de divulgação das obras de arte em que está empenhado Lothar Charoux. Ele é o primeiro artista que dá ao “Múltiplo” a sua verdadeira finalidade, qual seja, a de poder ser adquirido pelo grande público.

Num gesto magnânimo, próprio dos que são realmente grandes, realizou preciosíssimas serigrafias que estão sendo vendidas no MAM pelo incrível preço de 20 cruzeiros!. Tornou assim possível a muitos possuírem um “Charoux”.

Que esse gesto seja apreciado em seu alto valor e imitado por outros artistas. É o que realmente desejaríamos, porque um “Múltiplo” acessível até hoje não passou de simples ficção.


Como referenciar este documento:

KARMAN, Ernestina. Lothar Charoux. Folha da Tarde, São Paulo, 17 mai. 1974. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20605.pdf >. Acesso em: (data de hoje)



Nº de ordem: 20764

Tipo de texto: Artigo em revista

Veículo: Revista Veja

Local: São Paulo

Data: 22/05/1974

Autor: Olívio Tavares de Araújo

Título: O traço soberano


LOTHAR CHAROUX, retrospectiva; trezentas obras de 1942 a 1974; Museu de Arte Modema, São Paulo.


Nada mais difícil de conciliar, à primeira vista, que a obra exposta e a pessoa do autor. Os quadros, em sua maior parte, são superfícies negras, riscadas com cores vivas, que, numa precisa trama geométrica, criam efeitos ópticos sutis. O pintor é um homem de cabelos soltos e brancos, trajes displicentes, pequena estatura e um ar invariavelmente bonachão, que lembra os simpáticos vovôs das histórias infantis. Nada tem do introspectivo cerebral que se suporia ter criado um desenho tão exato.

O convívio com ambos, entretanto, reduz essa distância. Descobre-se em pouco tempo que Charoux não é apenas bem-humorado - sabendo refletir, com paciência e rigor, sobre os porquês de sua obra. E que esta, por seu lado, não é um frio exercício, nascido da cabeça, nem a ela exclusivamente dirigido.

Certeza interior - Lothar Charoux nasceu em Viena, em 1912, e aos 16 anos veio com a família para o Brasil. Depois de várias peripécias, que incluiu a compra, em Mato Grosso de um falido hotel de fronteira ("O vendedor nos dissera que era só remexer na terra e o ouro aparecia"), os Charoux se fixaram em São Paulo. "Não sabia fazer especificamente nada'". conta o artista. "Fui garçom, vendedor, empregado temporário e finalmente auxiliar de escritório, por muitos anos.''

Desde Viena, porém, o garoto se interessava por artes visuais . Morava em casa da avó e convivia com um tio escultor, Siegfried Charoux, que depois teria muitas de suas obras destruídas por ordem de Hitler. No Brasil, aos vinte e poucos anos, retomou o fio da infância. Entrou para o Liceu de Artes e Ofício paulista: "Nem pior nem melhor que qualquer escola de belas-artes", lembra. "Mas um aprendizado sem dúvida utilíssimo." Dele herdou Charoux a disciplina e a capacidade de trabalho que o caracterizam até hoje.

Da mesma época viria também, sua inequívoca tendência para a liberdade de pensamento e ação. Ligou-se logo a Waldemar da Costa, um mestre avançado, contra o reacionarismo do liceu. E foi mais longe. “Nas discussões, defendia ardorosamente a arte abstrata, porque acho que todos têm o direito de experimentar. Em arte, qualquer manifestação é válida.'' Quase sem querer, essa atitude progressista o foi transformando em pintor abstrato. Em fins da década de 40, sua obra misturava ainda a