Transcrições de Documentos | Lothar Charoux


Nº de ordem: 20771

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: Correio Paulistano

Local: São Paulo

Data: 1948

Autor: Ibiapaba Martins

Título: Charroux e Toledo Lara


À primeira vista, o conjunto de trabalhos expostos por Lothar Charoux não agradam ou, pelo menos, não agradaram a todos aqueles com quem tenho conversado e que manifestaram francamente sobre o caso. Com mais vagar, porém, examinando melhor as pesquisas técnicas de Charoux, suas invenções na composição, o equilíbrio conseguido na distribuição das cores, chega-se a uma reconciliação com o “abstracionism” cada vez mais envolvente do companheiro de Toledo Lara (exposição conjunta). Achamos que o artista não deve fugir a sua condição humana e, portanto, não deve abdicar do papel que a sociedade lhe reserva, - exigindo dele cada vez maior consciência. Por isso, sempre olhamos com simpatia para aqueles artistas que participam dos sofrimentos e lutas da sociedade e, mais ainda, se é ele um elemento consciente, dotado de uma filosofia prática da liberdade. Não gostaríamos, portanto, que a pintura fosse envolvida inteiramente pelo abstracionismo - angústia, inquietude vã, evasão metafísica - embora sejamos os primeiros a nos entusiasmar com a nobre composição e colorido de certos trabalhos de Charoux. Todavia, este é ainda um “abstracionista”: caminha para lá cada vez mais. Em sua atual exposição, aliás, o que menos há é “abstracionismo” e ninguém chamaria “quadro abstracionista” o “Cristo ao lado dos três ladrões”. Mais algum tempo, porém, e teremos um abstracionista puro, se é que possa haver um “abstracionismo puro”.


Como referenciar este documento:

MARTINS, Ibiapaba. Charoux e Toledo Lara. Notas de Arte, Correio Paulistano, São Paulo, 1948. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em:<http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20771.pdf>. Acesso em: (data de hoje) Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 21187

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: Folha da Manhã

Local: São Paulo

Data: 1958

Autor: José Geraldo Vieira

Título: Lothar Charoux


Lothar Charoux é um exemplo desse drama consciente do artista que não se deixou emparedar em sistemas já saturados. Iniciando sua carreira, pintou retratos expressionistas. Na pauta de Soutine, digamos assim. Atento às inovações, percorreu por algum tempo os caminhos comuns por onde passaram muitos dos atuais pintores modernos: o impressionismo, o cubismo, o expressionismo, o purismo, o abstracionismo.

Suas telas A janela e O Aquário, por exemplo, são típicas dessa passagem através de técnicas e formulações do figurativismo das últimas décadas do século passado e da primeira década deste ano. Lógico que no Brasil a iteração de sistemas expressionistas e cubistas se processou já no começo da terceira década. Da mesma forma que o abstracionismo, sob o influxo da Escola de Paris, do purismo e futurismo.

Lothar passou, portanto, com empenho, escrúpulo e critério por diversas tendências e fases artesanais e artísticas, de evidente estética já algo superada. E chegou ao abstracionismo, não por ânsia de criar algo diferente, mas ainda como solfejo de desteridade, de fatura, composição, partindo do ponto zero. Isto é, largando de vez o retrato, a pintura de paisagem, de interior, e recomeçando a pintura de criação estruturada.

O antigo desenhista geométrico encontrou, finalmente, o seu aeródromo para alçar voo ortodoxo de piloto não mais de provas, mas de trajetórias, no concretismo. O júri que lhe deu uma láurea no Prêmio de Arte Contemporânea como resultado de sua participação no I Salão Nacional de Arte Concreta, não premiou portanto um ousado pioneiro que inventasse uma técnica nova de desenho. Premiou um desenhista que se livrou de todos os seus passaportes já peremptos.

Aquela base manual do desenho geométrico onde Lothar Charoux se soube consolidar desde cedo, valeu-lhe como capacitação para, após tantas experiências, recomeçar seu caminho. Mercê disso, pode o artista iniciar suas variações sobre triângulos, losangos, obtendo desenvolvimentos, posições estáticas e lances dinâmicos que são outros tantos módulos de criação. Suas variantes sobre temas lineares, suas soluções aos problemas de espaço e estrutura, suas espirais em posição áurea, suas trajetórias em ritmos dentro de espaços noturnos, negros, onde o seu tira-linhas descreve constelações e percorre segredos de galáxias - tudo isso prova o seguinte: possibilidades ilimitadas de criar em planos chapados elementos gráficos com função plástica de efeito belíssimo. Em meio ao mundo caótico, ao que Victor Chab chama tão bem o descrédito da harmonia, e do verdadeiramente estético, os desenhos geométricos de Lothar Charoux provam que o artista deve permanecer dentro das leis de ritmo, impor seu critério no plano espacial. Parece-nos que sua arte, ora no mundo industrial, ora no mundo cósmico, aparentemente objetiva e prosaica como síntese de leis equilibradas, também se nutre de mistérios ideológicos e sentimentais, não é mera realização mecânica coexistindo com a técnica, mas possui mensagem poética, por sua serenidade e por seu contato com a magia.

Sua obra consciente e lúcida não é nunca uma série de variantes dum diagrama mecânico de intelectualismo árido. Contém em si o prestígio do sacrifício ascético das pesquisas, aquele mistério místico das comunidades que atingem o sobrenatural através de constantes despojamentos de potenciais nocivos, até que alcançam o prodígio da levitação. Libertando-se da superfície, dos suportes, criando em termos formais e espaciais, Lothar Charoux concilia em sua arte aquele dilema gráfico-plástico da sua juventude. É um escultor que desenha no espaço.


Como referenciar este documento:

VIEIRA, José Geraldo. Lothar Charoux. Artes Plásticas, Folha da Manhã, São Paulo, 28 set. 1958, p. 4 - Assuntos Culturais. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/21187.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 21144

Tipo de texto: Nota em jornal

Veículo: Jornal do Brasil

Local: Rio de Janeiro

Data: 20/06/1962

Autor: Ferreira Gullar

Título: Desenhos de Lothar Charoux


A Galeria Aremar, de Campinas, estado de São Paulo expõe atualmente uma série de desenhos de Lothar Charoux, artista que integrou o movimento de arte concreta, participando das mostras coletivas do movimento e realizando algumas exposições individuais em S. Paulo e no Rio. A atual mostra dos desenhos recentes de Charoux é apresentada pelo crítico Mario Pedrosa - redator licenciado desta coluna e seu fundador. Aproveitamos a oportunidade para trazer aos leitores do JB a voz autorizada de Mário Pedrosa, transcrevendo aqui o que escreveu para a mostra de Lothar Charoux na Aremar. O texto é o seguinte:

“Lothar Charoux é, antes de tudo, um artista consciencioso e coerente. Nada do que faz é indiferente. Suas mostras valem pelo testemunho, que sempre nos dão, dessa coerência. Sua arte é feita de rigor, mas de um rigor que se disfarça. Não por timidez ou indecisão, mas por pejo ou pudor, talvez. Pudor que indica na personalidade do artista um certo quê de irônico e dogmático embora não o mova a dúvida do rumo artístico que tomou. Isso faz uma personalidade simples, límpida e complexa, apesar das aparências. Seu desenho é, por tudo isso, uma pesquisa, diríamos, ardente de precisão e de contraprecisão. Quer dizer, a precisão tende a ser controlada pela imprecisão como o positivo é controlado pelo negativo. Na pequena mostra de hoje esse traço agora específico de sua arte se apresenta claramente. Apreciem-se os desenhos de figuras geométricas com linhas paralelas; estas dividem o espaço, e, na sucessão, são interrompidas pelos quadrados, nascente de uma refração que o quebrado das linhas ritmiza e os traços duplos em cor acentuam. O rigor aqui é procuradamente, quase diríamos, liricamente violentado por esse elemento contraditório que dá a refração. Os desenhos em círculos são de direções diferentes ou se voltam sobre si mesmos, como um passo em dança. Charoux já imaginou também uma espécie de quadro ou desenho giratório. Em que de um lado o espaço é rigorosamente dividido por ponto ou linha, enquanto que no outro a marcação é proposta, mas sem atender aos rigores da proporção. Cabe ao espectador , ao girar da plancha, verificar se a proporção pelo sensível ou pelo rigor coincidem ou não, ou qual a que encanta mais.

A última invenção do artista é a dos quadros compostos de que há um exemplo na mostra atual. Trata-se de suporte e mais nove quadrados. Esses são desmontáveis, podendo ser organizados como se queiram: arrumá-lo em frizo, horizontalmente ou sem sentido vertical. Também podem ser repartidos num canto da sala, pelas paredes que convergem. Tudo dependendo do gosto pessoal ou do espaço a expor, de que se disponha.

Esse artista concreto guarda da escola o rigor e a invenção; do artista em geral, sem qualquer escola, a sensibilidade; da pessoa humana autêntica, a despretensão, o humor.”


Como referenciar este documento:

GULLAR, Ferreira. Desenhos de Lothar Charoux. Artes Visuais, Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 20 jun. 1962, p. 4 - Cad. B. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/21144.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 21591

Tipo de texto: Entrevista

Veículo: A Tribuna

Local: Santos-SP

Data: 19/05/1971

Autor: -

Título: A simplicidade de L. Charoux nos seus desenhos geométricos


Traços formando figuras geométricas que dão ideia de vibração, em guache ou polimere, sobre fundo preto. Triângulos, quadros e círculos, sobrepondo-se uns sobre os outros, às vezes com o recurso de duas cores, de preferência o verde e o vermelho. “Num trabalho, um traço pode bastar. E é necessário mais que isso?” Quem faz a afirmação e a pergunta é o próprio artista.

Lothar Charoux, austríaco de Viena, há 43 anos no Brasil, com quase 20 prêmios ganhos em importantes salões do país e participação em nove Bienais de São Paulo, Charoux um desenhista com jeito de grande músico - “as pessoas acham que minha figura lembra mais a de um mestre ou de um maestro importante” - mas que sempre desejou ser escultor. Charoux, com seus desenhos geométricos que refletem a simplicidade de sua personalidade e a filosofia de sua vida, estão na galeria de arte Centro Cultural Brasil-Estados Unidos. A inauguração da exposição foi ontem, às 19 horas, e ficará aberta até meados de junho, diariamente das 17 às 22 horas, na rua Jorge Tibiriçá, 5.

“É interessante. As pessoas gostam de complicar tudo. E no fundo, o que mais as impressiona é a própria simplicidade. Tudo gira em torno de retas e de três figuras fundamentais - o quadrado, o triângulo e o círculo. A perfeição da linha é que causa o efeito. As pessoas se espantam ao verem as pirâmides do Egito. Mas não é por sua grandiosidade. O que surpreende é a perfeição da linha. Acontece a mesma coisa quando alguém vê o mar pela primeira vez. Na realidade, só existem duas cores: o verde e o azul separados por uma linha, a do horizonte. É isso que marca. É tudo tão simples de ser analisado. Mas há quem queira sempre complicar” - explica ele.

Charoux, 59 anos de idade, aparentando ter bem mais, acha que na vida acontece a mesma coisa: “As pessoas se importam muito com tudo. Querem explicações demais. E acabam se esquecendo que a vida é para ser vivida. Para viver basta se desligar. Eu tenho essa capacidade. Desligo-me totalmente de tudo. Só assim posso sentir as coisas”.

Mas, embora confessando esse desligamento, ele não vive alheio ao que acontece à sua volta: “Desprender-se das futilidades que às vezes nos tornam infelizes não significa ignorar o que passa no mundo. Eu, por exemplo, tenho esse modo de pensar, mas no meu rosto tenho marcas de muitos sofrimentos. O que Hitler fez ao meu povo não poderia ser ignorado. As tragédias, as guerras que existem todos os dias são sempre sentidas. Mas é possível e necessário alhear-se dos problemas”.

“Às vezes - continua - começo a complicar os meus desenhos, mas logo reformulo tudo e volto à síntese. Em certas ocasiões faço quadros que têm apenas um traço. Para mim, aquele traço diz tudo”. Geraldo Ferraz, crítico de arte, é da mesma opinião. Diz ele na apresentação do artista: “Charoux partiu decisivamente para uma redução do último sinal do espaço, no desenho não simplificado mas tomado em sua definitiva configuração linear. Não se lhe dá que exista o ponto - o que importa para ele é colocar no espaço a lembrança da estrutura, Então poderemos nós, lentamente, evocar mediante tais indicações rígidas, esqueletos de esquemas, aquilo que foi outrora a forma a que ele não mais se subordina”... “Inclino-me ainda sobre essa área de mistério infundível, que tão economicamente se manifesta, se revela, faz sua confissão ardente embora silenciosa, de um silêncio poético - aquele silêncio de Lorca, “em que resvalam montes e ecos e faz curvar os frontes para o chão”.

Lothar Charoux, que já pertenceu ao grupo dos concretistas da capital, diz que não sabe e não se preocupa com classificações e escolas, “um pouco porque sou preguiçoso e geralmente não compareço às reuniões que os artistas de um mesmo grupo gostam de fazer”.

Mariana Rell, artista que estava presente à inauguração da mostra, afirma que Charoux, na verdade, é muito personalista e não se subordina aos modismos. “Nunca o vi fazendo algo de que não gostasse. Ele é muito autêntico. Tem muita personalidade”.

Charoux estudou no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo, seguindo um curso acadêmico que, na sua opinião, “forma ótimos artesãos, mas poucos artistas''. Por isso procurou se libertar das influências da escola e aponta Waldemar da Costa, um dos mestres de pintura que conheceu no Liceu, como uma boa influência em sua vida artística. Atualmente, Lothar Charoux vem-se dedicando também à pintura e pretende igualmente fazer escultura, “coisa que eu sempre quis fazer mas por falta de espaço e dinheiro fui sempre adiando”.


Como referenciar este documento:

A simplicidade de L. Charoux nos seus desenhos geométricos. A Tribuna, Santos, 19 mai. 1971, p. 6. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/21144.pdf >. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20605

Tipo de texto: Crítica

Veículo: Folha da Tarde

Local: São Paulo

Data: 17/05/1974

Autor: Ernestina Karman

Título: Lothar Charoux


O museu de Arte Moderna de São Paulo, no Ibirapuera, está apresentando uma retrospectiva da obra de Lothar Charoux, artista nascido em Viena que consideramos brasileiro e nosso desde que veio para este país em 1928.

Lothar Charoux dispensa apresentações, referências e indicações de prêmios e exposições.

Tivemos conhecimento de que alguém - certamente algum esnobe ignorante dos valores artísticos de sua própria terra - perguntou a Charoux quando apresentaria seus novos “Vasarely”.

Não podíamos omitir esse fato e agora perguntamos: quando o governo brasileiro pensará em divulgar no Exterior a obra dos artistas nacionais do gabarito de Lothar Charoux.

Temos a certeza de que então Vasarely faria o que o esnobe não fez, ou seja, ser o primeiro a proclamar a personalíssima arte de nosso grande pintor e desenhista.

A oportunidade que o MAM nos dá de tomar contato com a evolução de Charoux não pode deixar de ser aproveitada por quantos desejam conhecer o que temos de melhor em artes plásticas.

Partindo do quadro “A cadeira” de 1941, constatamos que Charoux, a princípio um expressionista sensível, soube dar ao banal tema a mesma força de expressão que Van Gogh deu a modelo semelhante.

Acompanhando seu desenvolvimento passamos pelas naturezas mortas, paisagens e retratos de 1945 - cujas pinceladas fortes e cores sóbrias são o ponto alto -, para chegar aos trabalhos de 1948, nos quais os mesmos temas passam a ser tratados de maneira totalmente diferente.

A pintura movimenta-se; as pinceladas onduladas, como que torturadas, levam-nos novamente a pensar em Van Gogh. Não que Charoux se assemelhe a ele pela maneira de pintar, mas por possuir, como ele, a mesma vibração na pincelada.

Com o passar dos anos, as formas simplificam-se, entrosam-se em composições afins ao cubismo até atingirem, em 1948, uma abstração com forte influência do precursor Kandinsky, ao qual não permaneceram incólumes muitos outros grandes artistas.

Eis que em 1951, Charoux busca construções abstratas geométricas, simplificadas formal e coloristicamente.

Passa então por uma delicada fase em que, com apenas “risquinhos”, procura equilíbrios entre linhas e cores. Descobre que traçando o desenho enviesado e apresentando-o horizontalmente, consegue o que denominou "Equilíbrio Restabelecido”.

Depois, o artista ligou-se ao grupo concretista de São Paulo, com trabalhos geométricos, por algum tempo. Eis que, repentinamente, “estoura” Lothar Charoux, diferente, livre para alçar voo, com formas e ideias unicamente suas, tal como a borboleta liberta do casulo.

E esse artista não parou mais de criar e recriar linhas e formas. Estas formas resultam do agrupamento das linhas enfileiradas, em círculos que se interpenetram, em ziguezagues, em quadrados, em retângulos ou em triângulos.

As linhas, ora finas, ora mais largas, negras ou coloridas, tremulam num “op-art” brasileiríssimo, que de internacional só tem a filiação. E foi esse Charoux que mereceu o prêmio de melhor desenhista de 1972, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte.

Não podemos deixar de fazer referência também ao trabalho de divulgação das obras de arte em que está empenhado Lothar Charoux. Ele é o primeiro artista que dá ao “Múltiplo” a sua verdadeira finalidade, qual seja, a de poder ser adquirido pelo grande público.

Num gesto magnânimo, próprio dos que são realmente grandes, realizou preciosíssimas serigrafias que estão sendo vendidas no MAM pelo incrível preço de 20 cruzeiros!. Tornou assim possível a muitos possuírem um “Charoux”.

Que esse gesto seja apreciado em seu alto valor e imitado por outros artistas. É o que realmente desejaríamos, porque um “Múltiplo” acessível até hoje não passou de simples ficção.


Como referenciar este documento:

KARMAN, Ernestina. Lothar Charoux. Folha da Tarde, São Paulo, 17 mai. 1974. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20605.pdf >. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20764

Tipo de texto: Artigo em revista

Veículo: Revista Veja

Local: São Paulo

Data: 22/05/1974

Autor: Olívio Tavares de Araújo

Título: O traço soberano


LOTHAR CHAROUX, retrospectiva; trezentas obras de 1942 a 1974; Museu de Arte Modema, São Paulo.


Nada mais difícil de conciliar, à primeira vista, que a obra exposta e a pessoa do autor. Os quadros, em sua maior parte, são superfícies negras, riscadas com cores vivas, que, numa precisa trama geométrica, criam efeitos ópticos sutis. O pintor é um homem de cabelos soltos e brancos, trajes displicentes, pequena estatura e um ar invariavelmente bonachão, que lembra os simpáticos vovôs das histórias infantis. Nada tem do introspectivo cerebral que se suporia ter criado um desenho tão exato.

O convívio com ambos, entretanto, reduz essa distância. Descobre-se em pouco tempo que Charoux não é apenas bem-humorado - sabendo refletir, com paciência e rigor, sobre os porquês de sua obra. E que esta, por seu lado, não é um frio exercício, nascido da cabeça, nem a ela exclusivamente dirigido.

Certeza interior - Lothar Charoux nasceu em Viena, em 1912, e aos 16 anos veio com a família para o Brasil. Depois de várias peripécias, que incluiu a compra, em Mato Grosso de um falido hotel de fronteira ("O vendedor nos dissera que era só remexer na terra e o ouro aparecia"), os Charoux se fixaram em São Paulo. "Não sabia fazer especificamente nada'". conta o artista. "Fui garçom, vendedor, empregado temporário e finalmente auxiliar de escritório, por muitos anos.''

Desde Viena, porém, o garoto se interessava por artes visuais . Morava em casa da avó e convivia com um tio escultor, Siegfried Charoux, que depois teria muitas de suas obras destruídas por ordem de Hitler. No Brasil, aos vinte e poucos anos, retomou o fio da infância. Entrou para o Liceu de Artes e Ofício paulista: "Nem pior nem melhor que qualquer escola de belas-artes", lembra. "Mas um aprendizado sem dúvida utilíssimo." Dele herdou Charoux a disciplina e a capacidade de trabalho que o caracterizam até hoje.

Da mesma época viria também, sua inequívoca tendência para a liberdade de pensamento e ação. Ligou-se logo a Waldemar da Costa, um mestre avançado, contra o reacionarismo do liceu. E foi mais longe. “Nas discussões, defendia ardorosamente a arte abstrata, porque acho que todos têm o direito de experimentar. Em arte, qualquer manifestação é válida.'' Quase sem querer, essa atitude progressista o foi transformando em pintor abstrato. Em fins da década de 40, sua obra misturava ainda a figura (de uma clara inclinação expressionista, ligada à pintura de um Chaim Soutine, por exemplo) e a abstração. Nos anos 50, só esta última sobreviveu. Amparado por uma sólida certeza interior, Charoux resistia ao descrédito: "Diziam: ‘coitado, ele faz alguma coisa. Só que o recado dele é modesto…’ E eu deixava por isso mesmo”.

Economia de meios - Em meados da década de 50, com a primeira forte voga do concretismo, a pintura absolutamente geométrica de Charoux foi logo respaldada (e até encampada) pelo movimento. Ao mesmo tempo, surgiram os primeiros sinais de reconhecimento da crítica e do público, que perceberam com nitidez sua inegável seriedade de trabalho.

Nos últimos dez anos, essa seriedade se traduz sobretudo pela coerência e pela economia de meios. Charoux optou por uma obra predominantemente gráfica, muito mais desenho que pintura, onde apenas o traço reina soberano. Como tendência geral, poderia ser enquadrada na op art - muito antes que a op tivesse virado uma moda européia de exportação.

Mas isso parece não ter grande importância para o artista: "Essa história de quem foi o primeiro não interessa. Em sentido nenhum. No ano atrasado ganhei um prêmio de melhor desenhista. Imagine a injustiça praticada para com todos os bons desenhistas por aí”.

Tem grande importância, entretanto, a própria criação da obra - e o prazer que ela traz: ''Dizem que geometria é um negócio frio". Charoux protesta: "Pois eu fervo quando traço uma linha. Quando consegui fazer uma obra com um traço só, fiquei literalmente alucinado”.

··.


Como referenciar este documento:

ARAÚJO, Olívio Tavares de. O traço soberano. Revista Veja, São Paulo, 22 mai. 1974, p. 106. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20764.pdf >. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20604

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: Tribuna

Local: Santos

Data: 24/05/1974

Autor: Geraldo Ferraz

Título: Retrospectiva de Charoux no Museu de Arte Moderna


Dentre os pintores que em 1947, apresentávamos na Galeria Prestes Maia, em São Paulo, sob os auspícios da União Cultural Brasil-Estados Unidos, estava Lothar Charoux - era um dos “19 pintores”, os jovens que surgiam, depois da segunda guerra mundial, para trabalhar e, sua arte. Na inscrição final do prefácio, escrevíamos, contrariando o verso de Dante: “Juntai vossas esperanças oh vós que entrais”.

Então agora, na grande retrospectiva Charoux, é a verificação mais uma vez, que nos oferece o Museu de Arte Moderna de São Paulo, de que algumas esperanças convocadas realizaram a expectativa aberta. Doutra vez, foi no MAM, a retrospectiva de Marcelo Grassman, aliás, presente nestas paredes o gravador notável no retrato que dele fez Charoux… E os que conhecem Charoux, sem terem visto esta retrospectiva, podem se assustar: um retrato assinado por Charoux? Porém, precisamente, tem a retrospectiva essa qualidade demonstrativa. Evoca-nos os tempos em que o artista era figurativo. Precisamente, na esquina do tempo de 1947, já citada, entre o quadro “Janela”, daquele ano, e a “Abstração”, óleo sobre papelão de 1948, vai a modificação que faz surgir Charoux, sem dúvida alguma, “tout court”.

Donde então, termos de referir-nos à pré-história desde artista, antes de 1947-48 e depois, quando começou sua pesquisa sem fim, sua perquirição obsessiva, no rumo aberto pelo ensinamento de Kandinsky, em sua abordagem do “método analítico levando em conta os valores sintéticos”, quais foram colocadas as soluções no volume do Bauhaus “O ponto e a linha diante do plano”, Lothar Charoux, a certa altura de seu desenho ilustra, precisamente, o tema “A Linha e o Ponto”, pois no espaço do desenho 88 resume-se, desnudamente, a isto. Linha e ponto diante do plano. Esse espaço em que se desenvolve, pela continuação do desdobramento, uma seriação ativa de “alternâncias musicais”, referências com que o artista denominará alguns trabalhos.

Então, dos que correram o risco, mais do que nunca encontramos na longa aventura vivida por Charoux, esse pertinente busca para fazer das formas geométricas uma linguagem, em que os prismas, na formulação do círculo e do quadrado e suas distensões, chegam à sintaxe cinética, sem abandonar a evanescência musical das alternâncias, já assinalada, mas enriquecida por variações, que é o meio de que lança mão para enganar os que julgam seu esforço invalidado na repetição. Efetivamente, é uma multiplicação de temas a que surge dos traços que chegam a vibrar, a ressoar, quando se contém dentro da rígida formulação e incorporam a sonoridade nas modificações, ou ganhando densidade ou se afastando no desfazer-se da perdição no fundo negro.

Correu o risco até chegar ao desequilíbrio aparente, que ele tenta recompor depois em seriação, nos seus “equilíbrios restabelecidos”, que pluralizamos para que se tenha uma ideia inteira da posição assumida.

O ponto de ruptura jamais chega para Charoux - e tanto não chega que ironicamente ele o demonstra, nos quadros de suporte colocado tortamente na parede, porquanto elaborara no conteúdo a formulação exata do horizontal indiscutível, tornando então evidente que a angulação não importa para a linha.

Entre os desenhos a branco e preto, esta pintura feita quase sempre sobre fundo negro, mas em que a linha marca a força imprescritível do jogo, Charoux adotou algumas cores que servem de reforço vibrante à musicalidade combinada com a cinética. Este reforço vibrante é que nega o concretismo e dá uma ressonância sensual às pensadas esferas, às circunvoluções da linha imaginada, nem posta no plano, mas evidentemente manejada, abstratamente, como a perquirição insistente o ensejou.

Então estamos em que vale a retrospectiva, e vale tanto que os projetos de ladrilhos aí estão em sua pureza de sugestibilidade, quase dando notícias gregas na poesia do arabesco. O panorama aberto por Charoux nos indica as possibilidades realizadas dessa busca ardente, e complexa, em sua economia de meios, para atingir estes retângulos, firmemente, em uma linguagem de silêncio, muitas vezes deixando entretanto filtrar-se a surdina do anteamanhã.


Como referenciar este documento:

FERRAZ, Geraldo. Retrospectiva de Charoux no Museu de Arte Moderna. Tribuna, Santos, 24 mai. 1974. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20604.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20610

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: Jornal da Tarde

Local: São Paulo

Data: 17/05/1974

Autor: Jacob Klintowitz

Título: Lothar Charoux e a rejeição da anedota visual


É preciso respeito quando um artista trabalha a vida inteira procurando relações espaciais entre linhas e pontos. E quando esse homem continua conhecido, principalmente por seus colegas, e mantém a mesma atitude moderada de um operário que cumpre o seu dever, é necessário examinar essa convicção com olhos de apreender. Nós estamos falando de Lothar Charoux, atual expositor do Museu de Arte Moderna (Parque Ibirapuera) com uma retrospectiva de 300 trabalhos.

Charoux não é o primeiro nem o único artista brasileiro a dedicar todos os anos úteis de sua vida à atividade artística com poucas recompensas sociais. Cada um deles merece uma atenção especial. São os homens que, sem títulos, cargos e badalações, constroem a cultura nacional. No caso de Lothar Charoux temos um artista entregue a mais rigorosa abstração geométrica, tão pouco ao gosto do mercado brasileiro de arte.

Como muitos artistas contemporâneos, Lothar começou figurativo e modificou-se até o abstracionismo. Mas ao contrário de muitos artistas que no abstracionismo descobriram a liberdade do informalismo e os jogos sedutores do impulso, Charoux inclinou-se, cada vez mais, pelo rigorismo absoluto da forma. Ele procurou descobrir as leis básicas que regem a composição e a vida da arte e expressar essa síntese.

O seu desejo não é incomum na arte contemporânea. O abandono da figura deve muito a esse sonho. A descoberta dos verdadeiros temas da arte e a rejeição de qualquer anedota visual. Lothar Charoux conseguiu ultrapassar os perigos de uma arte pobre, restringida somente aos andaimes, para criar sensíveis composições espaciais onde os valores estabeleceram-se na apropriação e incorporação dos elementos visuais.

Lothar Charoux pela sensibilidade de sua linha, cria volumes nos espaços apropriados, enriquecendo as suas sóbrias composições. Raramente a cor tem importância fundamental no seu trabalho, restringindo-se, na maioria das vezes, a um elemento diferenciador das formas. Essa importância maior da linha e do espaço é que permitem a Charoux os seus desenhos, um dos pontos altos dessa retrospectiva. As últimas experiências do artista, na linha da utilização de materiais industriais, servem apenas para mostrar um aspecto do artista em seu atelier, uma vez que são trabalhos ainda em elaboração e estudo.

Os 300 trabalhos expostos permitem observar a evolução e a seriedade desse artista, inteiramente dedicado à experiência visual. Nessa exposição podem ser identificados os problemas visuais propostos em nosso tempo e algumas das soluções encontradas e pesquisadas.


Como referenciar este documento:

KLINTOWITZ, Jacob. Lothar Charoux e a rejeição da anedota visual. Jornal da Tarde, São Paulo, 17 mai. 1974. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20610.pdf>. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20607

Tipo de texto: Artigo em jornal

Veículo: O Globo

Local: Rio de Janeiro

Data: 18/07/1974

Autor: José Roberto Teixeira Leite

Título: Retrospectiva Charoux no MAM


Às 18h30 de hoje, no Museu de Arte Moderna, abre-se ao público do Rio de Janeiro uma Retrospectiva Lothar Charoux, a mesma há tempos efetuada em São Paulo. Charoux, nascido em Viena em 1912, chegou em 1928 ao Brasil, radicando-se em São Paulo, dando início à sua carreira sob a orientação de Waldemar da Costa, em 1940. Artista de grande coerência, tem evoluído dentro de uma linha não-figurativa concreta, podendo ser considerado um dos mais típicos e importantes representantes do Concretismo Brasileiro. A retrospectiva de logo mais no MAM servirá para dar a dimensão completa desse artista sóbrio e racional que, apesar de já ter exposto individualmente no Rio, há muitos anos, é compreensivelmente pouco conhecido entre os cariocas.


Como referenciar este documento:

LEITE, José Roberto Teixeira. Retrospectiva Charoux no MAM. O Globo, Rio de Janeiro, 18 jul. 1974. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20607.pdf >. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20789

Tipo de texto: Carta pessoal

Local: Rio de Janeiro

Data: 16/07/1974

Autor: Lothar Charoux


Rio de Janeiro, 16 de Julho de 1974.


Queridos Maria e Carlos,


É o fim, é simplesmente vergonhoso este meu caso de responder cartas, mas como continuo achando que nunca é tarde para as coisas acontecerem, acredito que um dia crio vergonha e respondo as cartas que recebo dentro de um prazo razoavelmente decente. Esperem e verão.

Recebi o catálogo daí e mais as diversas cartas, sempre com a firme intenção de responder imediatamente. A única desculpa, imagine que falo em desculpa, é que faço o mesmo com todas as outras respostas. Agora mesmo estou para escrever há mais de dois meses uma carta à vice-prefeita de Viena, solicitando uma sala para uma exposição minha.

Vocês o que tem feito? Lá as coisas são devem ser moles, vendo o que acontece aqui em São Paulo e no Rio. A única vantagem que vocês tem é que aí deve haver um pouco mais de sossego, o que é bom para poder trabalhar. Você, Maria, tem experimentado algo de novo? E o Carlos, escrevendo? Lá acontece o mesmo que aqui com relação à Televisão? Ninguém recebe ninguém, principalmente na hora das novelas. O papo acabou a não ser com os poucos sobreviventes dos botecos. Mas os botecos estão acabando, tudo está virando um supermercado e superloja e super bar onde não sobra lugar para gente sem afazeres específicos. O decantado progresso está arrasando cada vez mais as poucas coisas boas que havia na vida. Mas não há de ser nada, é o começo que as coisas vão piorar e muito, muito mesmo.

Estou no Rio e vou ver o que há com o famoso Salão Nacional, que desta vez parece estar encalhado de vez. Do meu lado houve uma porção de coisas que aconteceram e ainda vão acontecer. Fiz uma retrospectiva no Museu de Arte Moderna em São Paulo, que foi sem exagero um sucesso total. Montei, juntamente com Fiaminghi que deu os melhores palpites possíveis quanto à distribuição dos quadros. Ocupei o Museu inteiro com 300 e tantos trabalhos. O catálogo, que foi patrocinado na última hora (ora, sou eu que trato como sempre em cima da hora), a Diná, diretora do Museu ficou desesperada, achando que a exposição não sairia com a minha velha calma tudo ficou resolvido. Os catálogos (vou te mandar já um pelo correio) chegaram às 7 da noite, na hora de começar a exposição, e só 63. Eram vendidos a Cr$ 10,00 mais uma serigrafia a 20,00. Bem, a cobertura pelos jornais, rádio e Televisão foi ampla. Agora, depois de amanhã, vou abrir a mesma no Rio, no Museu de Arte Moderna daqui. Estou curioso para saber como vai ser. Aqui sou pouco conhecido, o que influe um tanto quanto, mas ao mesmo tempo tem uma exposição do Bauhaus, que tem sido um sucesso e vai ficar atrás da minha. É possível que muita gente vai tomar a minha como sendo do Bauhaus, mas o que interessa é que seja vista. Dia 11 de setembro vou fazer uma individual no Cosme Velho e logo depois, lá pelo dia 15 por aí, sigo para Viena para fazer justamente a exposição com o auxílio da vice-prefeita. Aliás, estou conseguindo uma ajuda do Itamaraty, com referência aos convites, transporte e possivelmente até uma ajuda de custo. E isso também para Munich e Milão. Seriam uns 10 a 12 dias em cada lugar. Não sei ainda se isso não é um tremendo erro meu em vez de gozar a Europa de me chatear, que exposição é aquele atropelo que a gente sabe, enfim veremos. Ontem mesmo combinei uma exposição minha em Washington, para março de 1975, para onde naturalmente quero também seguir. O Ianelli fez agora mesmo uma exposição nessa mesma Galeria, onde vendeu tudo, mas aí a conversa já era outra, porque o Ianelli tem aquilo que se chama mui pitorescamente de “cu para a lua”, coisa que me falta. A minha lua é sempre nova.

Como de costume, estou falando só de mim. E continuando assim dei, faz uns 15 dias uma tremenda trombada, aliás o caminhão é que me pegou quando ia a uma missa de ano, dum compadre meu, conversando com a minha mulher sossegadamente. Ela teve um corte na cabeça e levou uns três pontos, mas por uma sorte louca não quebraram os óculos dela, mas ela ficou com os olhos roxos.

Vocês devem ter lido do Caso do Collectio, cujo dono deu um tombo de 40 milhões novos na praça, em financeiras principalmente. Aí soube-se que falsificava quadros, vendia duas ou três vezes os mesmos quadros, ficando sempre ainda por cima com os quadros. Olha, o homem foi um craneo, pois [o restante da carta está em outro documento].


Como referenciar este documento:

SÃO PAULO. Instituto de Arte Contemporânea. Arquivos de Lothar Charoux — Carta de Lothar Charoux a Maria e Carlos. Rio de Janeiro, 16 jul. 1974. (carta) Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20789.pdf >. Acesso em: (data de hoje)


 

Nº de ordem: 20750

Tipo de texto: Apresentação Catálogo

Local: Rio de Janeiro

Data: 18/07/1974

Autor: Roberto Pontual


A retrospectiva Lothar Charoux, que agora se apresenta no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, foi inicialmente exibida, em maio último, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Vivendo no Brasil desde 1928, sua atuação como pintor e desenhista vem-se estendendo continuadamente entre nós há mais de trinta anos, numa contribuição que se evidencia sobretudo pelo coerência evolutiva.

Superada a fase inicial figurativa, sob a influência básica de seu professor Waldemar da Costa, a fidelidade a uma mesma linguagem vale por definição do trabalho de Lothar Charoux nos últimos quinze ou dezesseis anos. Das fórmulas estilísticas fundamentais no expressionismo e no cubismo veio chegando, pouco a pouco, aos limites externos da abstração. Assim, por volta de 1955 - quando já se havia estabelecido, especialmente através do impacto das representações suíça e alemã na I Bienal de São Paulo, em 1951, o clima propício para o ingresso da arte concreta entre nós - ele assume, inteira e definitivamente, o rumo da pura construção rigorosa de um novo espaço pictórico, abandonando de vez qualquer indício alusivo e se tornando, como disse Walter Zanini, um “morfólogo da linha pura, de características precocemente op”.

Desde então, ligado ao nosso movimento de arte concreta e a grupos posteriores de pesquisa óptica, concentrou seus desenho e pintura no desdobramento de uma série de problemas de ritmos visuais rigorosamente projetados, segundo processo de contraste entre o fundo chapado, claro ou escuro, e o “acontecimento” visual surgido da interpenetração de estreitas faixas lineares brancas ou vivamente coloridas. Esses jogos de pura visualidade, recolocando de outro modo o diálogo do claro e do escuro, da luz e da sombra, da forma e do fundo, sem abandonar em momento algum o âmbito do não-figurativo, estão encaminhando o trabalho de Charoux, de maneira coerente e inevitável, para a superação do plano e o ingresso no espaço tridimensional, que nessas pinturas e desenhos de antes e de agora já se encontra implícito na virtualidade de um movimento que não cessa de acumular-se. As linhas, embora fixadas no papel ou na tela, não estão paradas, porque o nosso olhar as percorre e move.


Como referenciar este documento:

PONTUAL, Roberto. [Apresentação de Lothar Charoux em catálogo], Rio de Janeiro, 18 jul. 1974. Acervo do Instituto de Arte Contemporânea. Disponível em: <http://www.iacbrasil.org.br/acervoiac/static/iac/uploads/acervo/arquivos/20750.pdf >. Acesso em: (data de hoje)